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29 de agosto de 2019

E. P. Thompson usa a dialética (projeto)


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Com esta postagem, estou continuando a publicação de trabalhos de mestrado e doutorado meus, entregues no final de cada matéria cursada. São textos importantes, pois não publiquei nenhum ainda aqui no blog, e consistem nas minhas formas mais elaboradas e avançadas de textos acadêmicos antes de fazer minha dissertação. Eles me levaram a pensar minha própria pesquisa ou matriz teórica, relacionando os autores lidos em cada semestre com meu objeto de investigação. Hoje retorno ao Prof. Dr. Sidney Chalhoub, especialista na obra de Machado de Assis e no escravismo brasileiro do século 19 que lecionou a disciplina “Tópicos Especiais em História I (História Social)”, reunindo então os pós-graduandos aceitos com projetos pra área de História Social, um dos nichos de pesquisa dentro da pós em História mais ampla. Uns dois meses antes do texto anterior, que foi o trabalho final definitivo, escrevi um projeto prévio a pedido do Sidney, procedimento muito didático adotado também por outros professores do IFCH, na graduação e na pós. O rascunho se chama Dialética em E. P. Thompson: teoria e prática como momentos de um só esforço, e originalmente previa uma análise de muito mais livros do historiador inglês e de teóricos marxistas mais variados pra comparação. Como vocês notaram, por causa do tempo disponível, reduzi o escopo da pesquisa, mas sem abandonar meu exercício analítico original.

Neste trabalho final de curso pretendo analisar como E. P. Thompson aplica a metodologia dialética em algumas de suas principais obras, mais exatamente, descrever como os procedimentos “teóricos” e “práticos”, ou “abstratos” e “empíricos”, se articulam para formar a argumentação. Entendo que essas duas dimensões, as quais o leitor pode discernir pelo esforço racional, mas não pode separar ao assimilar o conteúdo, constituem dois momentos simultâneos do trabalho intelectual de Thompson, em que as abstrações teóricas derivadas de sua experiência anterior e de um contato superficial com o objeto, criadas para ordenar seu foco durante a pesquisa de campo, são confrontadas com os resultados dessa pesquisa e repensadas conforme sua capacidade ou inadequação em explicá-los. As observações empíricas e as reelaborações da teoria se implicam mutuamente e o trabalho intelectual prossegue no caminho entre uma dimensão e outra.

As definições de “dialética” variaram bastante na história da filosofia e da reflexão sobre as ciências humanas, mas assumo aqui o uso que têm feito dela as correntes marxistas ditas “heterodoxas”, centradas em autores da Europa Ocidental e Central que ao longo do século 20 buscaram romper com os marxismos “ortodoxos” da Segunda Internacional e dos Partidos Comunistas de inspiração soviética: em linhas gerais, é dialética a metodologia para a qual a relação entre “teoria” e “prática”, ou entre “sujeito” e “objeto”, se caracteriza pela transformação e implicação mútuas, e que considera a realidade uma unidade de elementos diversos que dialogam entre si para formar um todo social orgânico. O conhecimento não é o mero reflexo de estímulos sensoriais, mas uma interação entre estes e os condicionamentos internos do “sujeito”, mediados pelas relações e construtos simbólicos sociais. As sociedades são orgânicas e bastante mutáveis, por isso só podem ser compreendidas por meio de abstrações embasadas na vida prática que a tomem como uma unidade múltipla e depois retornem a ela. Contudo, essa divisão entre “teoria” e “prática”, “sujeito” e “objeto”, é antes um recurso para entender os momentos inseparáveis de um único esforço do que a bifurcação entre duas atividades distintas e sem contato: abstrair é uma atividade simultânea a coletar informações. Esses “organismos” da sociedade não são coisas sempre iguais a si mesmas, encerráveis em definições atemporais, mas cruzamentos de relações entre pessoas, instituições, ofícios, grupos sociais ou mesmo tradições escritas e não escritas, que negociam entre si espaços de atuação e concessões ou benefícios.

Os escritos de E. P. Thompson se caracterizam por essa imbricação entre a reflexão abstrata e o esforço empírico, de forma que partindo dos conceitos consagrados sobre seus temas de estudo, geralmente em diálogo com a historiografia precedente, com filósofos teóricos e mesmo com os movimentos sociais, ele expõe o resultado de suas pesquisas e avalia a adequação dessas construções intelectuais, redesenhando os grandes modelos e obtendo, assim, uma nova lente para racionalizar com eficácia o que está observando. Ainda que se possa fazer uma distinção provisória entre obras mais “teóricas” e obras mais “empíricas” escritas por Thompson, suas reflexões teóricas, além de dialogar muito criticamente com diversas tradições de pensamento, jamais são totalmente abstratas e sempre partem de problemas despertados por seus estudos históricos (por exemplo, a cultura popular, o movimento operário e a política estatal na Grã-Bretanha dos séculos 17, 18 e 19), enquanto ao escrever historiografia, o esforço de teorização anda lado a lado com a descrição, como num romance, das personagens e seus sentimentos, do cenário, do enredo e das intrigas pessoais. E para descrever os “organismos” das sociedades que estuda, por entender que elas são muito mais complexas do que as esquadrinham as ciências sociais tradicionais, Thompson recorre não só à bibliografia especializada, aos dados estatísticos ou aos documentos de arquivo, mas também à literatura artística e à poesia, às artes plásticas, aos costumes populares (no que se incluem a música e versos correntes) que sobreviveram através dos séculos, às biografias e diários deixados por grandes personalidades ou pessoas comuns, às manifestações religiosas de cada época e, o que é importante, às inferências que podem ser feitas nas “entrelinhas”, aos “silêncios” que não são imediatamente visíveis nesses elementos.

Meu problema central será verificar como E. P. Thompson articula “teoria” e “prática” em suas obras, em outras palavras, como, formando sua própria dialética, ele integra construções abstratas (suas e de outros pensadores) e análises empíricas como dois momentos, e não atividades separadas, no mesmo esforço de criar relatos verossimilhantes a respeito das sociedades e épocas que estuda. Também tentarei analisar a articulação que Thompson faz entre as abordagens “teóricas” dentro de suas obras “práticas” e as obras propriamente “teóricas”, e vice-versa, ou seja, entre as abordagens “práticas” dentro de suas obras “teóricas” e as obras propriamente “práticas”. Esse exercício talvez não tenha uma descrição muito correta, pois as obras “teóricas” e “práticas” também poderiam ser consideradas como dois “momentos” de um mesmo esforço reflexivo que tem como objetivo intervir e desnaturalizar a realidade presente com base em problemas despertados pelo estudo de outros lugares e épocas. Buscarei, enfim, rascunhar uma definição da metodologia dialética com base na tradição teórica que inspirou a Nova Esquerda inglesa, da qual Thompson era parte, confrontá-la com a própria atitude dialética que pode ser apreendida das obras de Thompson e finalmente buscar descrever, de modo mais abstrato, alguns princípios básicos da metodologia dialética nesses escritos.

Para redigir o trabalho final, lerei algumas das principais obras de E. P. Thompson abordadas no curso, que poderiam ser grosso modo divididas em “teóricas” e “práticas”, conforme a relevância com que se abordam respectivamente a conceituação abstrata e a investigação empírica. Na primeira categoria poderiam ser listadas, dentre outras, A miséria da teoria (na edição em inglês, acompanhada de outros ensaios) e Making History, e na segunda, A formação da classe operária inglesa e Costumes em comum. Também é muito relevante a coletânea organizada em português sob o título As peculiaridades dos ingleses e outros artigos, em especial seu texto central, “As peculiaridades dos ingleses”, e ocupa um lugar especial, pois apesar de suas pretensões basicamente “teóricas” de um forte debate com outros marxistas de seu tempo, ela tem como principal substância não outras obras mais abstratas, mas os conhecimentos de Thompson sobre a Inglaterra dos séculos 17 a 19. De forma secundária e não indispensável, conforme a necessidade ou mesmo o tempo disponível para pesquisa, também poderei incursionar por outros livros e obras de referência que abordem mais pontualmente questões metodológicas ou outros problemas da tradição marxista, estando entre os autores e organizadores Tom Bottomore, Roger Garaudy, Adolfo Sánchez Vázquez, Mihailo Marković e Rodolfo Mondolfo. (Antonio Gramsci seria de grande valia, mas sua densidade e complexidade atrasariam a consecução do trabalho.) Esses autores poderiam ajudar não só a entender os pressupostos teóricos e políticos por trás dos escritos de Thompson, mas também a montar um conjunto conceitual que eu pudesse pôr em diálogo com estes para destes mesmos extrair uma concepção bem refletida sobre a metodologia dialética.


Obras de E. P. Thompson

THOMPSON, E. P. The Poverty of Theory & Other Essays. Nova York: Londres: Monthly Review Press, 1978.

______. A miséria da teoria ou um planetário de erros: uma crítica ao pensamento de Althusser. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

______. A formação da classe operária inglesa. 3 v. Tradução de Cláudia Rocha de Almeida, Denise Bottmann e Renato Busatto Neto. 3., 4. e 6. eds. Rio de Janeiro: São Paulo: Paz e Terra, 1987 e 2011.

______. Making History: Writings on History and Culture. Nova York: The New Press, 1994.

______. Costumes em comum. Tradução de Rosaura Eichemberg. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

______. As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Organizado por Antonio Luigi Negro e Sergio Silva. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2001.


Outras referências teórico-metodológicas

BOTTOMORE, Tom (Ed.). Dicionário do pensamento marxista. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

DEMO, Pedro. Introdução à metodologia da ciência. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1985.

GARAUDY, Roger. Marxismo do século XX. Tradução de Leandro Konder e Giseh Viana Konder. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.

MARKOVIC, Mihailo. Dialéctica de la praxis. Tradução de Margarita Jung. Buenos Aires: Amorrortu, 1972.

MONDOLFO, Rodolfo. Marx y marxismo: estudios histórico-críticos. Cidade do México: Fondo de Cultura Económica, 1986.

SÁNCHEZ VÁZQUEZ, Adolfo. Filosofia da práxis. Tradução de Luiz Fernando Cardoso. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.