domingo, 10 de maio de 2015

Conversações com Béla Kun

Discurso de Vladimir Ilich Ulianov (Lenin) gravado em disco no final de março de 1919, traduzido diretamente do russo e legendado. Acompanham breve introdução, informações técnicas e a versão em russo. Clique aqui para consultar o índice completo dos 14 discursos, sob a tag “Discursos de Lenin”.

Neste discurso, Lenin conta como recebeu de Béla Kun a notícia da instauração da República Soviética Húngara pelos comunistas locais e quais eram as perspectivas que reservava para o evento, inserido então na onda revolucionária europeia consecutiva à Revolução Russa de Outubro de 1917, onda que se extinguiria entre 1920 e 1921 sob a feroz repressão dos governos conservadores ou social-democratas nacionais.

A República Soviética Húngara foi proclamada a 21 de março de 1919, em substituição ao governo do presidente Mihály Károlyi e do primeiro-ministro Dénes Berinkey, que cederam seus postos a uma coalizão de sociais-democratas de esquerda e centro e de comunistas, estes detendo o poder de fato. Os dois antigos governantes falharam em manter a integridade do território húngaro imediatamente posterior à 1.ª Guerra Mundial, que agora era redistribuído entre vários países vizinhos, enquanto os comunistas angariavam popularidade em parte com a promessa de restaurar a antiga fronteira com o apoio da Rússia soviética, a qual, porém, deu-lhes pouca atenção por já estar envolvida em guerra civil. O governo de esquerda reformou a educação, nacionalizou as indústrias, aboliu a aristocracia e separou a Igreja do Estado, mas o terror que impôs a boa parte da população e as derrotas militares para a Tchecoslováquia e a Romênia em disputas de território levaram ao fim da efêmera república soviética a 1.º de agosto.

Béla Kun nasceu em família judia com o sobrenome “Kohn”, a 20 de fevereiro de 1886, numa cidade hoje pertencente à Romênia, trabalhando boa parte da vida como jornalista e lutando na 1.ª Guerra Mundial pela Áustria-Hungria, quando foi feito prisioneiro de guerra na Rússia em 1916 e se tornou comunista. Membro do PC russo, como outros húngaros, lutou na Guerra Civil Russa pelos bolcheviques e retornou à Hungria em 1918, onde encabeçou forte propaganda contra o governo republicano local, até sua demissão, em 1919, quando se instaurou um governo “soviético” do qual Kun foi o principal líder. Tendo caído a República Soviética Húngara, tornou-se figura importante na Internacional Comunista dos anos 1920 e atuou na Áustria e na Alemanha, até ser preso pelos próprios soviéticos em meio aos “grandes expurgos” em 1937 sob acusação de “trotskismo” e ser finalmente fuzilado nos arredores de Moscou, a 29 de agosto de 1938.


Título completo: Comunicado sobre as conversações radiotelegráficas com Béla Kun
Título em russo: Сообщение о переговорах по радио с Бела Кун [Soobschenie o peregovorakh po radio s Bela Kun]
Fonte: Obras completas (em russo), 5. ed., tomo 38, Moscou, Politizdat, 1969, pp. 232-233
Em outras línguas: inglês


O camarada Béla Kun já era bom conhecido meu em seus tempos de prisioneiro de guerra na Rússia e me visitava com frequência para conversarmos a respeito do comunismo e da revolução comunista. Por isso, quando recebemos o comunicado sobre a eclosão da revolução comunista húngara, ainda mais assinado pelo camarada Béla Kun, quisemos falar com ele para que nos esclarecesse melhor sobre qual era o estado de coisas por lá.

As primeiras notícias sobre o ocorrido nos impuseram alguma cautela, pois poderia ser uma enganação da parte dos chamados socialistas ou social-traidores contra os comunistas, os quais, além de tudo, encontravam-se presos. E então, no dia seguinte ao recebimento do primeiro comunicado sobre a revolução húngara, enviei uma mensagem a Budapeste pedindo a Béla Kun que se aproximasse do aparelho de radiotelegrafia, fiz-lhe perguntas que me permitissem verificar se era ele mesmo quem estava ali e lhe questionei sobre as garantias reais em relação ao caráter do governo e à sua política efetiva. A resposta enviada pelo camarada Béla Kun foi plenamente satisfatória e dissipou todas as nossas dúvidas.

Ocorrera que os socialistas de esquerda vieram à prisão consultar Béla Kun para a formação do novo governo, em cuja composição participaram somente esses socialistas, solidários aos comunistas, e os centristas, enquanto os socialistas de direita, social-traidores, por assim dizer intransigentes e incorrigíveis, abandonaram o partido, sem atrair consigo um operário sequer.

Os comunicados seguintes mostraram quão firme e comunista era a política do governo húngaro: enquanto na Rússia começamos pelo controle operário das indústrias e apenas gradualmente as socializamos, Béla Kun, com seu prestígio e sua confiança no apoio das vastas massas, pôde imediatamente fazer aprovarem uma lei de apropriação social de todas as empresas industriais da Hungria administradas de forma capitalista.

Passados dois dias, estávamos plenamente convencidos de que a revolução húngara, de um modo extraordinariamente rápido, havia seguido a trilha dos comunistas: a própria burguesia lhes havia entregado o poder, mostrando ao mundo inteiro que não consegue governar quando sobrevém uma grave crise e a nação corre perigo; e que não há senão um poder realmente popular, realmente amado pelo povo: o poder dos Sovietes de Deputados Operários, Soldados e Camponeses.

Viva o Poder Soviético na Hungria!


Товарищ Бела Кун хорошо знаком был мне еще тогда, когда он был военнопленным в России и не раз приходил ко мне беседовать на темы о коммунизме и коммунистической революции. Поэтому, когда пришло сообщение о венгерской коммунистической революции и притом сообщение, подписанное товарищем Бела Кун, нам захотелось поговорить с ним и выяснить точнее, как обстояло дело с этой революцией.

Первые сообщения о ней заставляли несколько опасаться, не было ли обмана со стороны так называемых социалистов или социал-предателей, не обошли ли они коммунистов, тем более, что те сидели в тюрьме. И вот, на другой день после первого сообщения о венгерской революции, я послал радиотелеграмму в Будапешт, прося Бела Кун прийти к аппарату, задавая ему вопросы такого рода, чтобы проверить, он ли там присутствует, и спрашивая его, какие реальные гарантии имеются относительно характера правительства, его действительной политики. Ответ, который дал товарищ Бела Кун, был вполне удовлетворительным и рассеял все наши сомнения.

Оказалось, что в тюрьму к Бела Кун пришли совещаться для образования правительства левые социалисты. И только эти левые социалисты, сочувствовавшие коммунистам, да еще люди центра, образовали новое правительство, а правые социалисты, социал-предатели, так сказать, непримиримые и неисправимые, совсем ушли из партии и ушли, не взяв с собой никого из рабочих.

Дальнейшие сообщения показали, что политика венгерского правительства была самая твердая и в коммунистическом направлении настолько, что если мы начали с рабочего контроля и лишь постепенно переходили к социализации промышленности, то Бела Кун своим авторитетом, своей уверенностью в том, что за него стоят громадные массы, мог сразу провести закон о переходе в общественную собственность всех промышленных предприятий Венгрии, которые велись капиталистически.

Два дня прошло, и мы вполне убедились в том, что венгерская революция сразу, необыкновенно быстро стала на коммунистические рельсы. Буржуазия сама сдала власть коммунистам Венгрии. Буржуазия показала всему миру, что, когда наступает тяжелый кризис, когда нация в опасности, буржуазия управлять не может. И лишь только одна действительно народная, действительно любимая народом власть — власть Советов рабочих, солдатских и крестьянских депутатов.

Да здравствует Советская власть в Венгрии!


sábado, 2 de maio de 2015

A 3.ª Internacional, Comunista

Discurso de Vladimir Ilich Ulianov (Lenin) gravado em disco no final de março de 1919, traduzido diretamente do russo e legendado. Acompanham breve introdução, informações técnicas e a versão em russo. Clique aqui para consultar o índice completo dos 14 discursos, sob a tag “Discursos de Lenin”.

Tendo sido recém-fundada a Internacional Comunista, Lenin traça um panorama da história das outras duas Internacionais, liga-as aos fatos históricos e apresenta a Internacional soviética como uma continuidade necessária à luta dos trabalhadores após a falência da social-democracia na Europa. A revolução na Rússia, segundo Lenin, dera ensejo a uma virada crucial no movimento operário mundial, enquanto o clima de otimismo é confirmado pelo sucesso momentâneo de outras insurreições vermelhas na Europa e da perspectiva de se formar uma federação internacional de repúblicas soviéticas.


Título completo: A 3.ª Internacional, Comunista
Título em russo: III (Третий), Коммунистический Интернационал [III (Treti), Kommunisticheski Internatsional]
Fonte: Obras completas (em russo), 5. ed., tomo 38, Moscou, Politizdat, 1969, pp. 230-231
Em outras línguas: inglês, espanhol




Em março deste ano de 1919 realizou-se em Moscou o congresso internacional dos comunistas, que fundou a 3.ª Internacional, Comunista, a união dos trabalhadores do mundo que aspiram ao estabelecimento do Poder Soviético em todos os países.

Fundada por Marx, a Primeira Internacional existiu de 1864 a 1872, e a derrota dos heroicos operários parisienses da célebre Comuna de Paris assinalou sua falência. Essa inesquecível Internacional se eternizou na história das lutas dos trabalhadores por sua libertação, pois lançou os alicerces da república socialista mundial que estamos tendo a honra de construir.

A Segunda Internacional existiu de 1889 até a guerra de 1914. Esse foi um período sem grandes revoluções e do desenvolvimento mais tranquilo e pacífico do capitalismo. O movimento operário fortaleceu-se então e amadureceu em vários países, mas seus líderes, na maioria dos partidos, acomodados aos tempos de paz, perderam a aptidão para a luta revolucionária. Em 1914, ao começar a guerra que por quatro anos cobriu a Terra de sangue – guerra entre capitalistas pela partilha dos lucros e pelo domínio sobre os povos pequenos e fracos –, esses socialistas passaram para o lado de seus governantes. Eles traíram os trabalhadores, ajudaram a prolongar a carnificina, tornaram-se inimigos do socialismo, passaram para o lado dos capitalistas.

As massas operárias viraram as costas a esses traidores do socialismo, iniciando em todo o mundo uma virada em direção à luta revolucionária. A guerra mostrou que o capitalismo morreu, que uma nova ordem está lhe sucedendo e que os traidores do socialismo desonraram a velha palavra “socialismo”.

Os trabalhadores ainda fiéis à missão de derrubar o jugo do capital hoje se autodenominam comunistas. A união deles está crescendo em todo o mundo, e em vários países o Poder Soviético já triunfou. Muito em breve, veremos o comunismo vencer no mundo inteiro e formar-se uma República Federativa Mundial dos Sovietes.


В марте текущего, 1919, года в Москве состоялся международный съезд коммунистов. Этот съезд основал III, Коммунистический Интернационал — Союз рабочих всего мира, стремящихся к установлению Советской власти во всех странах.

Первый Интернационал, основанный Марксом, существовал с 1864 по 1872 год. Поражение геройских парижских рабочих, знаменитой Парижской Коммуны, означало конец этого Интернационала. Он незабываем, он вечен в истории борьбы рабочих за свое освобождение. Он заложил фундамент того здания всемирной социалистической республики, которое мы имеем теперь счастье строить.

Второй Интернационал существовал с 1889 по 1914 год, до войны. Это время было временем наиболее спокойного и мирного развития капитализма, временем без великих революций. Рабочее движение окрепло и возмужало за это время в ряде стран. Но вожди рабочих в большинстве партий, привыкнув к мирному времени, потеряли способность к революционной борьбе. Когда началась в 1914 году война, залившая землю кровью в течение четырех лет, война между капиталистами из-за дележа прибылей, из-за власти над малыми и слабыми народами, эти социалисты перешли на сторону своих правительств. Они изменили рабочим, они помогли затянуть бойню, они стали врагами социализма, они перешли на сторону капиталистов.

Массы рабочих отвернулись от этих изменников социализма. Во всем мире начался поворот к революционной борьбе. Война показала, что капитализм погиб. Ему на смену идет новый порядок. Старое слово социализм опозорили изменники социализма.

Теперь рабочие, оставшиеся верными делу свержения ига капитала, называют себя коммунистами. Во всем мире растет союз коммунистов. В ряде стран победила уже Советская власть. Еще недолго и мы увидим победу коммунизма во всем мире, мы увидим основание Всемирной Федеративной Республики Советов.


domingo, 26 de abril de 2015

Em memória de Iakov Sverdlov

Discurso de Vladimir Ilich Ulianov (Lenin) gravado em disco no final de março de 1919, traduzido diretamente do russo e legendado. Acompanham breve introdução, informações técnicas e a versão em russo. Clique aqui para consultar o índice completo dos 14 discursos, sob a tag “Discursos de Lenin”.

Iakov Mikhailovich Sverdlov (1885-1919) foi um proeminente ativista bolchevique, próximo de Lenin, o qual tinha por ele muita admiração. De família judia, entrou para o Partido Operário Social-Democrata da Rússia em 1902, aliou-se à fração bolchevique, participou da Revolução Russa de 1905 e foi preso em 1906, tendo permanecido na cadeia ou no exílio a maior parte do tempo até 1917. Com papel destacado na Revolução de Outubro, presidiu o Secretariado do Partido Comunista da Rússia (bolchevique) e o Comitê Executivo Central do Congresso dos Sovietes Pan-Russo até sua morte prematura, cuja causa ainda é polêmica (oficialmente, teria sido gripe espanhola).

Considerado um ótimo organizador, enérgico, honesto e prático, Sverdlov esteve envolvido na execução dos membros da família imperial russa, a 16 de julho de 1918, em Iekaterinburg, mas com o papel disputado por vários especialistas, ora como o mandante, ora como o transmissor de ordens de Lenin.


Título completo: Em memória do camarada Iakov Mikhailovich Sverdlov, Presidente do Comitê Executivo Central Pan-Russo
Título em russo: Памяти Председателя Всероссийского Центрального Исполнительного Комитета, товарища Якова Михайловича Свердлова [Pamiati Predsedatelia Vserossiiskogo Tsentralnogo Ispolnitelnogo Komiteta, tovarischa Iakova Mikhailovicha Sverdlova]
Fonte: Obras completas (em russo), 5. ed., tomo 38, Moscou, Politizdat, 1969, p. 229
Em outras línguas: inglês


Quem trabalhava dia a dia com o camarada Sverdlov sabe muito bem que seu excepcional talento como organizador nos garantia algo de que tínhamos o pleno direito de nos orgulharmos: a possibilidade de um trabalho harmonioso, racional e organizado, à altura das massas proletárias organizadas, sem o qual não teríamos obtido êxito e que respondia inteiramente às necessidades da revolução proletária. A memória do camarada Iakov Mikhailovich Sverdlov não será apenas um símbolo do revolucionário devotado a sua causa ou um modelo de combinação entre sensatez e competência práticas, total ligação com as massas e habilidade em dirigi-las, mas será também um aval de que as massas cada vez mais amplas do proletariado avançarão sem cessar rumo à vitória completa da revolução comunista.


Кто работал изо дня в день с товарищем Свердловым, тем особенно ясно, что его исключительный организаторский талант обеспечивал нам то, чем мы гордились с полным правом. Он обеспечивал возможность дружной, целесообразной организованной работы, которая была бы достойна организованных пролетарских масс, той работы, без которой не могло бы быть успеха и которая всецело отвечала потребностям пролетарской революции. Память о товарище Якове Михайловиче Свердлове будет служить не только символом преданности революционера своему делу, не только образцом сочетания практической трезвости и практической умелости, полной связи с массами, с уменьем их направлять, но будет служить и залогом того, что все более и более широкие массы пролетариата пойдут все вперед и вперед к полной победе коммунистической революции.


Discursos de Lenin gravados (1919-21)


erickfishuk.blogspot.com/lenin-fala

Coleção concluída em 26 de julho de 2015


No início de 2013, descobri que Vladimir Ilich Ulianov, ou Vladimir Lenin (1870-1924), revolucionário bolchevique russo e primeiro dirigente da União Soviética, tinha gravado em disco 14 pequenos discursos sobre temas urgentes para a revolução na Rússia e o movimento comunista internacional, em três momentos cruciais: final de março de 1919 (fundação da Internacional Comunista), final de março de 1920 (início da derrota dos “exércitos brancos” na Guerra Civil) e 25 de abril de 1921 (implantação da NEP, o recuo estratégico ao mercado).

Com cada discurso, de abril de 2013 a março de 2015, primeiro traduzi o texto, depois montei um vídeo com o áudio ilustrado por fotos ou desenhos, e então legendei, sempre com leves alterações textuais conforme os padrões da leitura multimídia. Traduzi diretamente do russo, mas também cotejei com outras versões quando pude.

Os primeiros discursos estão em inglês numa seção especial do Arquivo Marxista na Internet (MIA), e os textos em russo também estão nas Obras completas de Lenin, que usei como matriz sempre que possível, e no imenso acervo de áudios SovMusic.ru. Dois discursos já tinham aparecido em português nas Obras escolhidas em três tomos da Progresso/Avante, mas em cada caso fiz as devidas referências.

Cada postagem traz os textos em português e russo, o vídeo anexado, informações técnicas e uma breve introdução. Esta página tem a lista completa de todas as 14 postagens, sob a tag “Discursos de Lenin”, mas os administradores do MIA em português também lançaram uma seção especial com todos esses discursos, os vídeos e informações adicionais.


Final de março de 1919

1. Em memória do camarada Iakov Mikhailovich Sverdlov, Presidente do Comitê Executivo Central Pan-Russo

2. A 3.ª Internacional, Comunista

3. Comunicado sobre as conversações radiotelegráficas com Béla Kun

4. Apelo ao Exército Vermelho

5. Sobre os camponeses médios

6. O que é o Poder Soviético?

7. Como livrar para sempre os trabalhadores do jugo dos latifundiários e capitalistas

8. Sobre os pogroms contra os judeus


Final de março de 1920

9. Sobre a restauração dos transportes

10. Sobre a disciplina laboral


25 de abril de 1921

11. Apartidarismo e Poder Soviético

12. Sobre o imposto em espécie

13. Cooperativas de consumo e de produção

14. Concessões e estímulo do capitalismo



domingo, 19 de abril de 2015

Stalin e a vitória sobre a Alemanha


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/stalin-vitoria



Introdução (Erick Fishuk)

Nova tradução e primeira legendagem do discurso do líder soviético Iosif Stalin celebrando a capitulação total do exército alemão e a vitória da URSS e seus aliados na Segunda Guerra Mundial, a 9 de maio de 1945. Foi transmitido em russo pelo rádio a toda a população, e constitui um documento histórico da maior importância.

Stalin de início anuncia a vitória da URSS e seus aliados sobre as tropas nazistas e traça um breve histórico da rendição, desde as assinaturas preliminares até a desmobilização total dos alemães, inicialmente desconfiável, mas rapidamente efetivada. São lembrados ainda os sacrifícios dos soviéticos durante a guerra, finalmente coroados com o triunfo, e os planos de Adolf Hitler de desmembrar a União Soviética e destruir a Rússia, reputados como “malucos” e enterrados pela virada no conflito. Concluindo, Stalin alude ao tempo de crescimento pacífico que raiava na Europa, parabeniza os soldados pela defesa nacional e saúda a memória dos mortos em combate.

Dentro das Obras completas de Stalin, o discurso em russo pode ser lido no tomo 15 (Moscou, Pisatel, 1997), pp. 223-224. Seu título original é “Vystuplenie po radio, 9 maia 1945 goda”, porém é mais conhecido como “O pobede nad Germaniei” (A vitória sobre a Alemanha). No site Sovmusic.ru, além de ler o texto, pode-se baixar o áudio em MP3. Vários sites têm uma primeira tradução em português, cuja origem e autor desconheço, e com a qual cotejei meu trabalho, mas que apresenta vários defeitos. Abaixo você pode ver também montagem em vídeo que fiz com fotos e o áudio do discurso, e que legendei sendo feitas no texto, como sempre, as necessárias adaptações a esse tipo de mídia:


Camaradas!

Caros e caras compatriotas!

Chegou o grande dia da vitória sobre a Alemanha. Os fascistas alemães, forçados à rendição pelo Exército Vermelho e pelas tropas de nossos aliados, reconheceram a derrota e anunciaram sua capitulação incondicional.

A 7 de maio foi assinado na cidade de Reims o protocolo preliminar de rendição. A 8 de maio, os representantes do alto comando alemão, na presença dos representantes do Alto Comando das tropas aliadas e do Comando Supremo das tropas soviéticas, assinaram em Berlim a ata final de rendição, que iria entrar em vigor à meia-noite.

Cientes dos hábitos ferinos dos figurões alemães, que veem tratados e acordos como letra morta, não temos razões para crer apenas em suas palavras. Porém, desde hoje de manhã, as tropas alemãs, em cumprimento à ata de rendição, começaram em massa a depor armas e se entregar a nossas tropas. Isso não é mais letra morta, mas uma capitulação autêntica das forças armadas da Alemanha. É verdade que um grupo de tropas alemãs nos arredores da Checoslováquia continua resistindo a se render. Mas espero que o Exército Vermelho consiga lhe impor a realidade.

Agora podemos com toda razão declarar que chegou o dia histórico da derrota final da Alemanha, o dia da grande vitória de nosso povo sobre o imperialismo alemão.

Os grandes sacrifícios que fizemos em nome da liberdade e independência de nossa Pátria, as incontáveis privações e sofrimentos por que passou nosso povo durante a guerra, o intenso trabalho no front e na retaguarda consagrado no altar da Pátria, não ficaram por menos e culminaram na vitória total sobre o inimigo. A luta secular dos povos eslavos por sua existência e independência terminou na vitória sobre os agressores alemães e sua tirania.

Doravante sobre a Europa tremulará a grande bandeira da liberdade dos povos e da paz entre eles.

Três anos atrás Hitler declarou publicamente que entre suas tarefas estava desmembrar a União Soviética e arrancar dela o Cáucaso, a Ucrânia, a Bielorrússia, os Bálticos e outras regiões. Ele disse claramente: “Destruiremos a Rússia de forma que nunca mais possa se reerguer”. Isso faz três anos. Mas as ideias malucas de Hitler não tinham como se realizar, e o curso da guerra as reduziu a pó. Na prática ocorreu algo claramente contrário aos delírios dos hitleristas: a Alemanha sofreu uma derrota completa. As tropas alemãs estão capitulando, e a União Soviética celebrando a vitória, embora não tencione nem desmembrar, nem destruir a Alemanha.

Camaradas! A Grande Guerra Patriótica terminou com nossa vitória total. Acabou a época da guerra na Europa, começou um tempo de evolução pacífica.

Parabéns pela vitória, meus caros e caras compatriotas!

Glória a nosso heroico Exército Vermelho, que defendeu a independência de nossa Pátria e alcançou a vitória sobre o inimigo!

Glória a nosso grande povo, o povo vencedor!

Glória eterna aos heróis que pereceram combatendo o inimigo e consagraram sua vida pela liberdade e felicidade de nosso povo!



domingo, 12 de abril de 2015

Stalin invoca vitória final (6/11/1944)

Este vídeo com a transcrição em russo é antes uma pequena nota, pois o trecho em questão é bem curtinho, mas dá ensejo a algumas reflexões. Trata-se do excerto de um informe de Iosif Stalin, líder soviético, à sessão solene do Soviete de Moscou de Deputados Trabalhadores com organizações partidárias e sociais da cidade de Moscou, ocorrida a 6 de novembro de 1944, informe cujo texto foi publicado na íntegra na edição do jornal Pravda do dia seguinte. Esse trecho foi pronunciado no final do discurso, em que Stalin conclama pela vitória final dos Aliados sobre os nazistas, após estes serem expulsos do território soviético.

Dentro das Obras completas de Stalin, o informe completo em russo pode ser lido no tomo 15, editado em Moscou pela Pisatel em 1997, pp. 192-203. Seu título original é “Doklad na torzhestvennom zasedanii Moskovskogo Soveta deputatov trudiaschikhsia s partiinymi i obschestvennymi organizatsiami goroda Moskvy, 6 noiabria 1944 goda”. Eu baixei o vídeo sem legendas desta página, e apenas acrescentei as legendas.

Hoje não vou colocar a tradução em português: ela deve ser lida no vídeo, já que as adaptações foram insignificantes. Abaixo do vídeo, coloquei a transcrição em russo do que Stalin fala, e em seguida o trecho tirado do texto, finalizando com a comparação entre os dois excertos.


Iosif Stalin pronuncia o seguinte:

“Красная Армия достойно выполнила свой патриотический долг и освободила нашу Отчизну от врага. Отныне и навсегда наша земля свободна от гитлеровской нечисти. Теперь за Красной Армией остаётся её последняя заключительная миссия, а именно довершить вместе с армиями наших союзников дело разгрома немецко-фашистских войск, добить фашистского зверя в его собственном логове и водрузить над Берлином знамя победы.”

Mas no Pravda saiu escrito o seguinte:

“Красная Армия достаточно выполнила свой патриотический долг и освободила нашу Отчизну от врага. Отныне и навсегда наша земля свободна от гитлеровской нечисти. Теперь за Красной Армией остаётся её последняя заключительная миссия: довершить вместе с армиями наших союзников дело разгрома немецко-фашистской армии, добить фашистского зверя в его собственном логове и водрузить над Берлином знамя победы.”

As diferenças com o texto escrito são que neste, “достойно” [dostoino] (dignamente) é substituído por “достаточно” [dostatochno] (com suficiência); “а именно” [a imenno] é trocado por dois pontos; e “немецко-фашистских войск” [nemetsko-fashistskikh voisk] (tropas fascistas alemãs) se torna “немецко-фашистской армии” [nemetsko-fashistskoi armii] (exército fascista alemão), se bem que “tropas” em russo é usado em geral como sinônimo de “exército”. Sabendo, aliás, que “войско” [voisko] em russo é “tropa”, e seu plural é “войска” [voiska], lembremos que em esloveno “exército” se diz “vojska”.


Adendo (19/8/2026): 11 anos depois, remexendo em meus papéis velhos, isto é, arquivos digitalizados que estava limpando em meu backup... Achei alguns documentos do acervo do comunista brasileiro Octavio Brandão e fotografados por mim em 28 de maio de 2015 (segundo os metadados) no Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) da Unicamp. Ainda estava no meio do mestrado e, pela data, pode ter me atraído justamente porque dias antes eu tinha publicado esta tradução, cujo título é quase idêntico... salvo pelo fato de datar do ano anterior. Infelizmente não guardei o número de localização do documento.

Embora esteja indicado como tradução pro português feita por Brandão e por “Prestes” (seria alguma irmã de Luiz Carlos Prestes?), o teor deve ser muito parecido com a íntegra do discurso parcialmente traduzido nesta publicação. Brandão se exilou na URSS de 1931 a 1946, tendo sua esposa Laura morrido na época da invasão nazista, enquanto Prestes chegou no mesmo ano, mas em 1935 voltou ao Brasil, onde foi preso no início de 1936. Como algumas irmãs de Luiz Carlos – uma das quais casaria com o viúvo Brandão – ficaram na Rússia, é provável que alguma delas, e não o ex-capitão, deva ter sido a cotradutora do discurso.

Provavelmente, o conteúdo não deve ter se alterado muito durante aqueles anos, tanto mais que a versão de 1944 (cuja íntegra pode ser lida em link já indicado acima) começa da seguinte forma: “Товарищи! Сегодня советские люди празднуют 27-ю годовщину победы Советской революции в нашей стране.” (Camaradas! Hoje os soviéticos celebram o 27.º aniversário da vitória da Revolução Soviética em nosso país.) Exceto pela opção de traduzir não literalmente como “Os povos da União Soviética” (afinal, nunca surgiu um gentílico próprio pra “soviético(s)”, usando-se “sovétski chelovék” – um homem soviético – e “sovétskie liúdi” – pessoas soviéticas), vemos que abaixo sai cortado, inclusive, um “Revolução Socialista de Outubro”.


domingo, 5 de abril de 2015

Discurso: Stalin entra na 2.ª Guerra


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/stalin-guerra



Cartaz de propaganda: “Sob a direção do grande Stalin, avante rumo ao comunismo!”


Introdução (Erick Fishuk)

Discurso que traduzi direto do russo para o português e legendei na íntegra. Faz parte de uma série de discursos de Stalin que pretendo lançar até o dia 9 de maio de 2015 em memória dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa.

No dia 22 de junho de 1941, apesar do Pacto Molotov-Ribbentrop de não agressão assinado entre os dois países em 1939, a Alemanha nazista invade a URSS a oeste. A incursão já era esperada pelos comunistas soviéticos, mas Hitler pegou os bolcheviques desmobilizados naquele momento. Após alguns dias de tensão na alta cúpula do Partido Comunista, Stalin decide pronunciar um discurso por rádio a todo o povo soviético, no dia 3 de julho seguinte.

Stalin inicia explicando a dimensão da invasão nazista pela mobilização antecipada dos alemães junto à fronteira, já que a URSS não queria ter rompido o pacto de 1939. Este é justificado pelo tempo adicional de paz que teria dado aos soviéticos para se prepararem melhor, sendo seu rompimento uma tragédia política para a Alemanha. Apontando a grandeza do perigo, Stalin conclama ao fim do relaxamento e da covardia, à militarização do cotidiano, a ajudarem o Exército Vermelho e a formarem guerrilhas, sabotagens e outras forças que estorvassem os nazistas. Por fim, Stalin exalta o caráter patriótico e salvador da guerra, ligada com a resistência da Europa e América e sua bem-vinda ajuda à URSS, e chama o povo a estar em torno do partido e do governo para vencer.

Dentro das Obras completas de Stalin, o discurso em russo pode ser lido no tomo 15 (Moscou, Pisatel, 1997), pp. 56-61. Seu título original é “Vystuplenie po radio, 3 iulia 1941 goda”. No site Sovmusic.ru, além de ler o texto é possível baixar o áudio em MP3. Existem ainda uma tradução parcial em espanhol e uma integral em francês que cotejei com meu trabalho para melhorá-lo. Depois que concluí tradução e legendagem, fui informado que uma primeira tradução em português já estava publicada no livro Stalin, de Emil Ludwig (Rio de Janeiro, Calvino, 1943), mas não fiz o cotejamento por falta de tempo.

Abaixo você pode ver também montagem em vídeo que fiz com fotos e o áudio do discurso, que legendei sendo feitas no texto, como sempre, as necessárias adaptações a esse tipo de mídia:


Camaradas! Cidadãos! Irmãos e irmãs!

Combatentes de nosso exército e marinha!

É a vocês que me dirijo, meus amigos!

A traiçoeira agressão militar da Alemanha hitlerista à nossa Pátria, iniciada em 22 de junho, continua. Apesar da heroica resistência do Exército Vermelho, apesar das melhores divisões e melhores unidades de aviação inimigas já terem sido destruídas e perecido nos campos de batalha, o inimigo avança em sua incursão, lançando ao front novas forças. As tropas hitleristas conseguiram tomar a Lituânia, uma parte significativa da Letônia, o Oeste da Bielorrússia e parte do Oeste da Ucrânia. A aviação fascista está ampliando as áreas de operação de seus bombardeiros, submetendo a seu fogo Murmansk, Orsha, Magiliou, Smolensk, Kyiv, Odesa, Sevastopol. Nossa Pátria está correndo um sério perigo.

Como pôde ocorrer de nosso glorioso Exército Vermelho ter cedido às tropas fascistas tantas cidades e distritos nossos? Será que as tropas fascistas alemãs são realmente um exército invencível, como apregoa sem descanso a vaidosa propaganda fascista?

Claro que não! A história ensina que não há e nunca houve exércitos invencíveis. O exército de Napoleão se reputava invencível, mas foi destruído em sucessão por tropas russas, inglesas e alemãs. O exército alemão de Guilherme 2.º na época da primeira guerra imperialista também se reputava invencível, mas foi várias vezes derrotado pelas tropas russas e anglo-francesas e finalmente destruído por ingleses e franceses. Deve-se dizer hoje o mesmo sobre o exército fascista alemão de Hitler. Esse exército ainda não havia encontrado séria resistência no continente europeu, e apenas em nosso território se deparou com real oposição. E se por conta dessa resistência as melhores divisões do exército fascista alemão foram destruídas por nosso Exército Vermelho, significa que as tropas hitleristas também podem ser, e serão, destruídas, tal como o foram os exércitos de Napoleão e de Guilherme 2.º.

Quanto ao fato de parte de nosso território, mesmo assim, estar ocupada pelas tropas fascistas alemãs, a explicação principal é que a guerra da Alemanha fascista contra a URSS começou sob condições favoráveis às tropas alemãs e desfavoráveis às tropas soviéticas. Ocorre que a Alemanha, como país que conduz a guerra, já tinha as tropas inteiramente mobilizadas, e as 170 divisões alemãs lançadas contra a URSS e alocadas junto às nossas fronteiras se encontravam em estado de total prontidão, esperando apenas o sinal para avançar, enquanto as tropas soviéticas ainda deviam se mobilizar e se alocar nas fronteiras. Aqui também importou muito a circunstância da Alemanha fascista ter violado de forma inesperada e traiçoeira o pacto de não agressão que ela assinou em 1939 com a URSS, não contando que seria considerada pelo mundo inteiro como o lado agressor. É natural que nosso pacífico país, não querendo tomar para si a iniciativa de violar o pacto, não podia seguir o caminho da traição.

Pode-se perguntar: como pôde ocorrer do Governo Soviético ter-se posto a assinar um pacto de não agressão com pessoas tão traiçoeiras e monstruosas como Hitler e Ribbentrop? Não teria sido aqui cometido um erro da parte do Governo Soviético? Claro que não! O pacto de não agressão é um tratado de paz entre dois Estados, e foi exatamente algo assim que nos propôs a Alemanha em 1939. Podia o Governo Soviético recusar tal proposta? Penso que nenhum Estado pacífico pode recusar um acordo de paz com potência vizinha, mesmo que no comando dela se encontrem monstros e canibais como Hitler e Ribbentrop. E isso, claro, sob a condição obrigatória de que o acordo de paz não fira direta ou indiretamente a integridade territorial, a independência e a honra do Estado pacífico. Como se sabe, o pacto de não agressão entre a Alemanha e a URSS é exatamente dessa natureza.

O que nós ganhamos ao assinar com a Alemanha o pacto de não agressão? Garantimos paz a nosso país durante um ano e meio e a possibilidade de preparar suas forças para reagir, caso a Alemanha fascista se arriscasse a agredi-lo a despeito do pacto. É um ganho inegável para nós e uma perda para a Alemanha fascista.

O que ganhou e perdeu a Alemanha fascista ao romper traiçoeiramente o pacto e cometer a agressão à URSS? Ela alcançou situação um tanto vantajosa para suas tropas durante um curto prazo, mas perdeu politicamente, revelando-se aos olhos do mundo inteiro como uma agressora sanguinária. Não se pode duvidar que esse ganho militar passageiro para a Alemanha é apenas episódico, e que o imenso ganho político para a URSS constitui o fator sério e duradouro em cuja base devem se desdobrar os sucessos militares decisivos do Exército Vermelho na guerra contra a Alemanha fascista.



A cidade russa de Smolensk destruída após duro combate entre alemães e soviéticos.


É por isso que todo nosso valoroso exército, toda nossa valorosa marinha de guerra, todos os nossos pilotos-falcões, todos os povos de nosso país, toda a melhor gente da Europa, América e Ásia, enfim, toda a melhor gente da Alemanha repudiam as ações traiçoeiras dos fascistas alemães e demonstram simpatia pelo Governo Soviético, aprovam a conduta dele e veem que nossa causa é justa, que o inimigo será destruído, que nós devemos vencer.

Por força da guerra que nos foi imposta, nosso país entrou num embate mortal com seu pérfido e fidagal inimigo, o fascismo alemão. Nossas tropas estão combatendo heroicamente um adversário armado até os dentes com tanques e aviões. O Exército e a Marinha Vermelhos, superando inúmeras dificuldades, estão lutando abnegadamente por cada palmo da Terra Soviética. Estão entrando em combate as principais forças do Exército Vermelho, armadas com milhares de tanques e aviões. A bravura dos guerreiros do Exército Vermelho não tem paralelo. Nossa reação ao inimigo está ficando maior e mais forte. Junto ao Exército Vermelho está se erguendo em defesa da Pátria todo o povo soviético.

O que se exige para liquidar o perigo que nossa Pátria está correndo, e que medidas devemos tomar para derrotar o inimigo?

Antes de tudo, é indispensável que nosso povo, o povo soviético, entenda toda a profundidade do perigo que ameaça nosso país e renuncie à benevolência, ao relaxamento, aos humores da edificação pacífica, plenamente compreensíveis antes da guerra, mas atualmente nocivos, já que ela mudou radicalmente a situação. O inimigo é cruel e implacável. Ele tem por objetivo tomar nossas terras, regadas com nosso suor, tomar nossos cereais e nosso petróleo, produzidos com nosso esforço. Ele tem por objetivo restaurar o poder dos latifundiários e o tsarismo, destruir cultura e instituições nacionais de russos, ucranianos, bielorrussos, lituanos, letões, estonianos, usbeques, tártaros, moldávios, georgianos, armênios, azerbaijanos e outros povos livres da União Soviética, germanizar esses povos, transformá-los em escravos dos príncipes e barões alemães. Trata-se, assim, da vida ou morte do Estado Soviético, da vida ou morte dos povos da URSS e seu ingresso na liberdade ou na escravização. Os soviéticos precisam entender isso, deixar de ser descuidados, mobilizar-se e reorganizar todo seu trabalho de um jeito novo, bélico, que não inspire pena do inimigo.

É indispensável, a seguir, que em nossas fileiras não haja lugar para chorões e covardes, alarmistas e desertores, que nossa gente desconheça o temor na luta e vá abnegadamente à nossa Guerra Libertadora Patriótica contra os escravizadores fascistas. O grande Lenin, fundador de nosso Estado, dizia que as qualidades essenciais dos soviéticos deviam ser a bravura, a ousadia, a ausência de temor na luta, a disposição para combater junto ao povo os inimigos de nossa Pátria. É indispensável que essas excelentes qualidades de um bolchevique se tornem atributos dos milhões e milhões em nosso Exército e Marinha Vermelhos e em todos os povos da União Soviética.

Devemos desde já reorganizar todo nosso trabalho de um jeito bélico, submetendo tudo aos interesses do front e às tarefas que organizem a derrota do inimigo. Os povos da União Soviética veem agora que o fascismo alemão é irrefreável em seu rancor e ódio ensandecidos à nossa Pátria, a qual garantiu a todos os trabalhadores emprego livre e bem-estar. Os povos da União Soviética devem se erguer em defesa de seus direitos e de sua terra contra o inimigo.

O Exército e a Marinha Vermelhos e todos os cidadãos da União Soviética devem proteger cada palmo da Terra Soviética, brigar até a última gota de sangue por nossas cidades e povoados, demonstrar a coragem, iniciativa e astúcia próprias de nosso povo.

Devemos organizar uma ajuda multilateral ao Exército Vermelho, garantir o reforço intensivo de suas fileiras, garantir-lhe o abastecimento com todo o necessário, organizar o rápido avanço dos transportes de tropas e carga militar e uma ampla ajuda aos feridos.

Devemos fortalecer a retaguarda do Exército Vermelho, submetendo aos interesses dessa missão todo o nosso trabalho, garantir o funcionamento intensivo de todas as empresas, fabricar mais fuzis, metralhadoras, canhões, cartuchos, projéteis, aviões, organizar a salvaguarda das fábricas, centrais elétricas, serviços telefônicos e telegráficos, ajustar a defesa antiaérea local.



Histórica parada militar na Praça Vermelha a 7 de novembro de 1941, sob cerco nazista.


Devemos organizar uma luta sem trégua contra quaisquer desorganizadores da retaguarda, desertores, alarmistas, espalhadores de boatos, aniquilar os espiões, diversionistas, para-quedistas inimigos, prestando em tudo isso assistência rápida a nossos batalhões de extermínio. Precisamos ter em vista que o inimigo é pérfido, ardiloso, perito em enganar e espalhar falsos boatos. É preciso levar tudo isso em conta e resistir às provocações. Precisamos desde já julgar no tribunal de guerra todos os que estorvam com seu alarmismo e covardia a causa da defesa, sem qualquer distinção.

Em caso de retirada forçada das unidades do Exército Vermelho, devemos levar todo material ferroviário rodante, não deixar ao inimigo uma só locomotiva, um só vagão, não deixar ao adversário um só quilo de cereais, um só litro de combustível. Os kolkhozianos devem levar todo o gado, entregar os cereais à proteção dos órgãos estatais para serem transportados a regiões na retaguarda. Todos os bens valiosos, inclusive metais não ferrosos, cereais e combustível, que não puderem ser levados devem ser absolutamente destruídos.

Nas regiões ocupadas pelo inimigo, devemos criar grupos guerrilheiros de cavalaria e infantaria, criar grupos de sabotagem que combatam as unidades do exército inimigo, fomentem guerrilhas por toda parte, explodam pontes e estradas, avariem serviços telefônicos e telegráficos, incendeiem bosques, depósitos e comboios. Nas regiões ocupadas, devemos criar condições intoleráveis ao inimigo e todos os seus cúmplices, perseguir e aniquilá-los a cada passo, frustrar todas as suas iniciativas.

A guerra contra a Alemanha fascista não deve ser tida como uma guerra qualquer. Ela não é apenas uma guerra entre dois exércitos. Ela é, além disso, uma grande guerra de todo o povo soviético contra as tropas fascistas alemãs. O objetivo dessa Guerra Patriótica nacional contra os opressores fascistas não é apenas liquidar o perigo que nosso país está correndo, mas também ajudar todos os povos da Europa dobrados pelo jugo do fascismo alemão. Nessa guerra libertadora não estaremos sozinhos. Nessa grande guerra teremos aliados fiéis na figura dos povos da Europa e América, inclusive do povo alemão escravizado pelos figurões hitleristas. Nossa guerra pela liberdade da Pátria se confundirá com a luta dos povos da Europa e América por sua independência e pelas liberdades democráticas. Essa será uma frente única dos povos que defendem a liberdade, contra a escravização e a ameaça de escravização por parte dos exércitos fascistas de Hitler. Por essa razão, o histórico discurso do Sr. Churchill, premiê britânico, sobre a ajuda à União Soviética e a declaração do governo dos EUA sobre a disposição em prestar ajuda a nosso país, os quais só podem despertar um sentimento de gratidão nos corações dos povos da União Soviética, são plenamente compreensíveis e significativos.

Camaradas! Nossas forças são incalculáveis. O inimigo, cheio de presunção, logo deverá se convencer disso. Junto ao Exército Vermelho estão se erguendo milhares e milhares de operários, kolkhozianos e intelectuais para a guerra contra o inimigo agressor. Vão se levantar as massas de milhões de nosso povo. Os trabalhadores de Moscou e Leningrado já se puseram a formar aos milhares uma milícia popular em apoio ao Exército Vermelho. Em cada cidade que correr o perigo de invasão inimiga, devemos formar tal milícia popular, erguer todos os trabalhadores à luta para defender de corpo e alma sua liberdade, sua honra e sua Pátria em nossa Guerra Patriótica contra o fascismo alemão.

Para mobilizarmos rapidamente todas as forças dos povos da URSS e para conduzirmos a reação ao inimigo e sua agressão traiçoeira à nossa Pátria, criamos o Comitê Estatal de Defesa, em cujas mãos concentramos a plenitude do poder do Estado. O Comitê Estatal de Defesa se pôs a trabalhar e está conclamando todo o povo a cerrar-se em torno do partido de Lenin e Stalin, em torno do Governo Soviético para apoiar com abnegação o Exército e a Marinha Vermelhos, para derrotar o inimigo, para vencer.

Todas as nossas forças em apoio a nosso heroico Exército Vermelho, à nossa gloriosa Marinha Vermelha!

Todas as forças do povo à derrota do inimigo!

Avante, pela nossa vitória!



Guerrilheiras soviéticas na Frente Oriental de combate aos nazistas.

domingo, 29 de março de 2015

Veillons au salut de l’Empire (tradução)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/empire

Esta é uma canção revolucionária francesa cuja letra foi escrita nos últimos meses de 1791 por Adrien-Simon Boy, cirurgião-chefe do Exército do Reno, sobre a melodia da romança (canção sentimental) Vous qui d’amoureuse aventure, courez et plaisirs et dangers, da comédia Renaud d’Ast, composta em 1787 por Nicolas Dalayrac. Muito tocada em eventos oficiais do Primeiro Império de Napoleão Bonaparte, quase virou de vez o hino nacional no lugar da Marselhesa.

Originalmente, a palavra empire (império) do título e do primeiro verso, com E minúsculo, que cumpria essencialmente a função da rima, tinha o sentido de “pátria”, ou, no sentido mais geral, de “pátria de todos os homens livres”. Com o E de Empire tornado maiúsculo, a referência passou a ser ao império napoleônico.

Esta versão da música foi gravada em 1989 no álbum La Révolution française en chansons, protagonizado pelo Chorale Populaire Paris, pelo Sextuor de la Cité e por Bernard Demigny. A quarta estrofe não é cantada, enquanto o estribilho da terceira, que é diferente, aparece igual, sendo originalmente “Liberté, liberté ! que ce nom sacré nous rallie/Poursuivons les tyrans, punissons leurs forfaits/Nous servons la même patrie/Les hommes libres sont Français” (Liberdade, liberdade! Que esse nome sagrado nos una/Persigamos os tiranos, punamos seus desmandos/Nós servimos à mesma pátria/Os homens livres são franceses). Leia aqui a letra integral em francês!

Eu baixei o áudio para legendagem a partir deste vídeo, traduzi e legendei. Logo abaixo meu próprio vídeo, além da letra em francês e em português, apenas com as estrofes cantadas no vídeo:


1. Veillons au salut de l’Empire,
Veillons au maintien de nos lois ;
Si le despotisme conspire,
Conspirons la perte des rois !

Refrain (2x):
Liberté, liberté ! que tout mortel te rende hommage !
Tyrans, tremblez ! vous allez expier vos forfaits !
Plutôt la mort que l’esclavage !
C’est la devise des Français.

2. Du salut de notre patrie
Dépend celui de l’univers ;
Si jamais elle est asservie,
Tous les peuples sont dans les fers.

(Refrain 2x)

3. Ennemis de la tyrannie,
Paraissez tous, armez vos bras.
Du fond de l’Europe avilie,
Marchez avec nous aux combats.

(Refrain 2x)

____________________


1. Cuidemos da salvação do Império,
Cuidemos para manter nossas leis;
Se o despotismo conspirar,
Conspiremos a ruína dos reis!

Refrão (2x):
Liberdade, liberdade! Todo mortal lhe renda homenagem!
Tremam, tiranos! Vocês pagarão por seus desmandos!
Antes morte do que escravidão!
Esse é o lema dos franceses.

2. Da salvação de nossa pátria
Depende a do universo;
Quando ela é escravizada,
Todos os povos são agrilhoados.

(Refrão 2x)

3. Inimigos da tirania,
Apareçam todos, peguem em armas.
Do fundo da Europa humilhada,
Marchem conosco nos combates.

(Refrão 2x)



domingo, 22 de março de 2015

Le Chant du départ (tradução)

Esta é uma canção revolucionária francesa composta em 1794 por Étienne Nicolas Méhul (melodia) e Marie-Joseph Chénier (letra), que sobreviveu à época da Revolução e do Primeiro Império (período napoleônico), tendo sido usada em diversas situações com vários fins e simbologias. Também conhecida como Hymne à la liberté (Hino à liberdade), era muito tocada em eventos do governo de Napoleão Bonaparte, e por isso é conhecida como um de seus hinos não oficiais.

A canção tem um formato pelo qual cada estrofe é cantada por uma personagem diferente, alusiva à história da Revolução Francesa e da população local, enquanto o refrão é cantado por um conjunto de guerreiros, visto ser uma canção de combate. Na versão que legendei, são cantadas a primeira (deputado do povo), a segunda (mãe de família), a quarta (um menino), a sexta (uma moça) e a sétima (três guerreiros) estrofes. Leia aqui a letra integral em francês!

Esta versão da música foi gravada no álbum Révolution Française em 1990 pelo Coral e Orquestra do Capitólio de Toulouse, então regidos pelos maestros Michel Plasson e Marcel Seminara.

Segundo a Wikipédia em francês, a palavra barrière logo no primeiro verso, que traduzi como “paliçada”, tem o sentido de “liça”, ou seja, uma área em torno dos castelos fortificados, cercada por paliçadas de madeira, em que se realizavam torneios, combates e justas. Em francês, lice nomeia essa paliçada ou a área que ela circula, enquanto em português “liça” designa o local de combate, e “paliçada” é um sinônimo seu. Barrière também poderia ser uma referência à fronteira norte da França, regida pelo “Traité de la Barrière” (Tratado da Barreira) de 1715, que visava impedir invasões francesas aos Estados limítrofes locais.

Midi designa correntemente o Sul da França, daí eu ter traduzido du nord au midi como “de norte a sul”. Bara e Viala são Joseph Bara e Joseph Agricol Viala, dois adolescentes republicanos mortos no início dos anos 1790 em conflitos com realistas, e cuja mitologia foi amplamente desenvolvida na posteridade. Hyménée, ou “himeneu”, é um sinônimo de “matrimônio”, e fer, ou “ferro”, traduzi como “espada”, da qual acredito que seja sinônimo.

Eu baixei o áudio para legendagem a partir deste vídeo, traduzi e legendei. Logo abaixo meu próprio vídeo, além da letra em francês e em português, apenas com as estrofes cantadas no vídeo:


(Un député du Peuple)
La victoire en chantant nous ouvre la barrière.
La Liberté guide nos pas.
Et du nord au midi, la trompette guerrière
A sonné l’heure des combats.
Tremblez, ennemis de la France,
Rois ivres de sang et d’orgueil !
Le Peuple souverain s’avance ;
Tyrans descendez au cercueil.

Chant des guerriers (Refrain) :
La République nous appelle
Sachons vaincre ou sachons périr
Un Français doit vivre pour elle
Pour elle un Français doit mourir.
Un Français doit vivre pour elle
Pour elle un Français doit mourir.

(Une mère de famille)
De nos yeux maternels ne craignez pas les larmes :
Loin de nous de lâches douleurs !
Nous devons triompher quand vous prenez les armes :
C’est aux rois à verser des pleurs.
Nous vous avons donné la vie,
Guerriers, elle n’est plus à vous ;
Tous vos jours sont à la Patrie :
Elle est votre mère avant nous.

(Refrain)

(Un enfant)
De Bara, de Viala le sort nous fait envie ;
Ils sont morts, mais ils ont vaincu.
Le lâche accablé d’ans n’a point connu la vie :
Qui meurt pour le peuple a vécu.
Vous êtes vaillants, nous le sommes :
Guidez-nous contre les tyrans ;
Les républicains sont des hommes,
Les esclaves sont des enfants.

(Refrain)

(Une jeune fille)
Et nous, sœurs des héros, nous qui de l’hyménée
Ignorons les aimables nœuds ;
Si, pour s’unir un jour à notre destinée,
Les citoyens forment des vœux,
Qu’ils reviennent dans nos murailles
Beaux de gloire et de liberté,
Et que leur sang, dans les batailles,
Ait coulé pour l’égalité.

(Refrain)

(Trois guerriers)
Sur le fer devant Dieu, nous jurons à nos pères,
À nos épouses, à nos sœurs,
À nos représentants, à nos fils, à nos mères,
D’anéantir les oppresseurs :
En tous lieux, dans la nuit profonde,
Plongeant l’infâme royauté,
Les Français donneront au monde
Et la paix et la liberté.

(Refrain)

____________________


(Um deputado do Povo)
A vitória, cantando, nos abre a paliçada.
A Liberdade guia nossos passos.
E de norte a sul, o clarim de guerra
Anunciou a hora dos combates.
Tremam, inimigos da França,
Reis ébrios de sangue e orgulho!
O Povo soberano avança;
Tiranos, desçam à tumba.

Canto dos guerreiros (Refrão):
A República nos chama
Saibamos vencer ou perecer
Um francês deve viver por ela
Por ela um francês deve morrer.
Um francês deve viver por ela
Por ela um francês deve morrer.

(Uma mãe de família)
Não temam as lágrimas de nossos olhos maternais:
Não temos nenhum sofrimento vil!
Devemos triunfar quando vocês pegarem em armas:
São os reis que devem chorar.
Nós demos a vida a vocês,
Guerreiros, mas não é mais sua;
Todos os seus dias são da Pátria:
Ela é sua mãe antes de nós.

(Refrão)

(Uma criança)
Nós invejamos o destino de Bara e de Viala;
Eles morreram, mas venceram.
Um covarde bem vivido não sabe nada da vida:
Quem morre pelo povo é que viveu.
Vocês são valentes, e nós também:
Guiem-nos contra os tiranos;
Os republicanos são homens,
Os escravos são crianças.

(Refrão)

(Uma moça)
E nós, irmãs dos heróis, nós que ignoramos
Os amáveis laços do matrimônio;
Se, de se unir um dia a nosso destino,
Os cidadãos expressarem o desejo,
Que voltem para nossa cidade
Adornados de glória e liberdade,
E que seu sangue, nas batalhas,
Tenha corrido pela igualdade.

(Refrão)

(Três guerreiros)
Pela espada, ante Deus, juramos a nossos pais,
A nossas esposas, a nossas irmãs,
A nossos representantes, a nossos filhos, a nossas mães
Aniquilar os opressores:
Em todo lugar, na noite profunda,
Submergindo a infame realeza,
Os franceses darão ao mundo
A paz e a liberdade.

(Refrão)



domingo, 15 de março de 2015

Garçom/Reginaldo Rossi em esperanto


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/garcom

Mais uma de minhas traduções de músicas brasileiras para o esperanto. Hoje apresento a vocês uma peça no mínimo pitoresca: uma versão da música Garçom (Kelnero), composta e cantada por Reginaldo Rossi, que fiz em 7 de dezembro de 2002. Um grande sucesso do brega! Nesta página você pode ler a letra em português, e abaixo a letra em esperanto e o vídeo com a música.

Ĉi tiu kanzono estas granda sukceso de muziko “bizara” en Brazilo, kantata kaj komponita de Reginaldo Rossi, kies tradukon de la portugala lingvo al Esperanto mi faris la 7-an de Decembro 2002. La originala titolo en la portugala estas Garçom, kiu ankaŭ signifas “kelnero”. Ĉi-paĝe vi povas legi la tekston en la portugala, kaj ĉi-sube vi rigardos videon kun la kanzono kaj legos tekston en Esperanto.


Kelnero

1. Kelner’,
Ĉe tiu ĉi tablo malnova
Al vi historioj sin ŝovas
Kaj centoj parolas pri am’.
Kelner’,
Drinkejoj nin vidas egale.
Mi diras okazojn banale.
Aŭskultu min, jen mia dram’.

Rekantaĵo/Refrão:
Mia virin’ edziniĝos hodiaŭ por ĝoj’,
Letero pri tio al mi estis voj’
Por la disŝirado de tiu ĉi kor’.
En la drinkejo, ĉe tablo, foriras la trist’.
Mi min ebriigos, fariĝos “drinkist’”
Kaj sur lita planko alvenos la dorm’.

2. Kelner’,
Mi scias, ke mi vin malplaĉas,
Sed la ebriuloj sin aĉas
Kaj tuj venas prav’ kaj kuraĝ’.
Kelner’,
Plorad’, por mi, estas cel’ nura.
Mi donos la monon fakturan.
Min aŭdu, se helpos vin saĝ’.

(Rekantaĵo/Refrão)