domingo, 13 de janeiro de 2019

Karel Gott – Tam, kam chodí vítr spát


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Estou continuando a coleção lançada no início de 2018, com nosso célebre croata Vice Vukov, após notar que a música brasileira em 2017 tinha se tornado um verdadeiro lixo. E, pelo que constatei, ela piorou ainda mais em 2018, sem perspectiva boa pra 2019, por isso decidi seguir minha missão. Vou redescobrindo pérolas populares e românticas do mundo eslavo, pra que possam inspirar nossos artistas e agradar a todo brasileiro.

Esta é a segunda canção que traduzi diretamente do checo, se não contarmos o próprio hino da República Checa, pro qual, porém, contei também com outras traduções. De novo agora, eu mesmo traduzi do próprio original, sem outros cotejos, usando a prática de aprendizado autodidata desde outubro de 2017 e o conhecimento adquirido após traduzir uma peça teatral completa do checo de outubro a dezembro últimos. O nome da música, surgida ainda na antiga Checoslováquia, é Tam, kam chodí vítr spát (Lá aonde o vento vai dormir), interpretada por Karel Gott, considerado o maior cantor nacional.

Gott (n. 1939), que nasceu durante a ocupação nazista, é considerado o maior cantor masculino de língua checa, mas com grande sucesso também nos países de língua alemã, na qual ele também canta (Gott significa “Deus” na língua alemã). Ele também é pintor amador, e sua formação foi como eletricista, mas ficou célebre por meio da música, começando a carreira de cantor profissional em 1960. O deslanche de sua trajetória foi nos anos 70, tendo gravado muitos álbuns e inclusive sendo lançado na URSS em 1977, em cujos futuros países ele seria também admirado. Gott, que tem um site oficial em checo, encerrou a carreira em 1990, mas retornou em 1993, embora naquela década se focasse mais na pintura e nas exposições que realizou.

Tam, kam chodí vítr spát tem melodia de Ivan Kotrč e letra de Zbyněk Vavřín, e foi gravada pela primeira vez em 1965. Os arranjos ficaram por conta da orquestra de Karel Vlach, e o coral soando ao fundo tem a direção de Lubomír Pánek. O vídeo foi extraído do programa de TV Z levého rukávu, emitido em 1967, e tem um upload oficial da gravadora de Karel Gott no YouTube. Eu copiei a letra original desta página, cujo site também tem muita coisa de Gott, como biografia, fotos, letras de música, pinturas etc. Seguem abaixo minha legendagem, o texto em checo (original) e a tradução em português:


Tam, kam chodí vítr spát,
Tam já cestu znám,
Tam, kam chodí vítr spát,
V údolí svůj domov mám.

Tam, kam chodí vítr spát,
Tam svůj domov mám,
Tam, kam chodí vítr spát,
Tam i já se vracívám.

Měsíční gong po větru volá,
Měsíční gong svá hejna svolává,
Tomu, kdo sám, sám se toulá
Zpáteční lístek po větru posílá.

Tam, kam chodí vítr spát,
Tam já domov mám,
Zpátky každý se vrátí rád
Tam, kam vítr šel spát.

Měsíční gong po větru volá,
Měsíční gong svá hejna svolává,
Tomu, kdo sám, sám se toulá
Zpáteční lístek po větru posílá.

Tam, kam chodí vítr spát,
Tam já domov mám,
Zpátky každý se vrátí rád
Zpátky, kam vítr šel spát

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Lá aonde o vento vai dormir,
Lá eu conheço o caminho,
Lá aonde o vento vai dormir,
No vale, eu tenho meu lar.

Lá aonde o vento vai dormir,
Lá eu tenho meu lar,
Lá aonde o vento vai dormir,
Pra lá também volto às vezes.

O gongo da Lua chama no vento,
O gongo convoca suas revoadas,
Àquele que é um solitário errante
Manda no vento passagem de volta.

Lá aonde o vento vai dormir,
Lá eu tenho um lar,
Todos vão gostar de retornar
Lá aonde o vento foi dormir.

O gongo da Lua chama no vento,
O gongo convoca suas revoadas,
Àquele que é um solitário errante
Manda no vento passagem de volta.

Lá aonde o vento vai dormir,
Lá eu tenho um lar,
Todos vão gostar de retornar,
Voltar aonde o vento foi dormir.


Uma curiosidade: não sei quem foi o tradutor, mas Karel Gott também lançou uma versão em inglês dessa canção, que se tornou Home (Lar/Casa), com a letra bastante alterada. Veja que o estilo tenta imitar bem o Elvis Presley, febre na época. Quem quiser só o áudio, pode ver a versão cedida pelos donos dos direitos autorais. Eu mesmo traduzi de forma não literal, então não reclame dizendo que “tem coisas erradas”, “tá impreciso” e sei lá o quê. Até porque a versão escrita que achei tem mesmo uma redação estranha (o tradutor devia ser checo mesmo), e não entendi totalmente coisas como “ocupei/tomei uma Roma”. Não fiz legendas bilíngues pra deixar livres as imagens, e o texto em inglês também segue abaixo:

Home is where I want to be,
Home’s the place I sight for,
You, my love, are far away,
I’m so sad and all alone.

Home means everything to me,
Home’s the place I cried for,
I miss you more every day
And the happiness we’ve known.

I think of you
And all the luck ones back home,
I dream of you,
Though love I left behind,
And now I know
It’s time that I seesed [seized?] a Rome,
And so today
I’m riding to say
That I’m coming home.

Home, the place I long to see,
Home, the place I died for,
Now my wandering days are through,
I will come stright home to you!



sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Buscar as coisas do alto, ainda hoje?


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NOTA: Mais um desses textos que escrevi em 2011, no florescimento da minha aptidão crítica, juntando religião, política e comportamento. Não está datado, e talvez seja do final de abril, no máximo começo de maio, embora a última modificação do meu arquivo Word esteja datada de 9 de setembro. Como se verá, era uma época em que eu ainda não me incomodava de continuar acompanhando minha família na missa, sendo que atualmente quase não vou, e até os meus relaxam cada vez mais. O interessante é que eu acabei articulando isso com leituras que estava fazendo na época, e fiquei bem feliz de ter reencontrado notas de impressão desses textos. Da mesma forma, hoje não uso mais a torto e a direito o rótulo “ateu”, como fazia nos tempos em que a dessacralização era a moda. Mesmo que muitos agora considerem o neoateísmo como uma “modinha”, essas minhas reflexões da época se fazem mais atuais do que nunca, dado o presente emburrecimento geral do Brasil e do mundo. Quem não se incomoda com parágrafos longos, pode entender cada parte como um só.



Apresentação – O magnânimo padre Marcelo Falsarela, da Diocese de Bragança Paulista, fez um sermão instigante, no fim da tarde de 24 de abril de 2010, a respeito, entre outras leituras, de uma carta de São Paulo que exortava seus fiéis a buscarem as coisas “celestes, do alto”, e não as coisas terrenas. Esse pároco, embora jovem, ou talvez por isso mesmo, é um dos poucos ainda vivos no Brasil que não se põe acima de seu rebanho e comunga com o povo, fazendo as vezes de psicólogo, amigo, parente, arrecadador de verbas e várias outras funções.

A loquacidade de sua pregação, minha simpatia por sua pessoa e meu cruzamento de certas ideias e leituras com o tema da prédica fez-me concluir que devemos, sim, se não aspirar ao “celeste”, pelo menos visar ao duradouro, ao longo prazo e à qualidade, e não ao imediato, ao fugaz e ao quantitativo.

O ateu na missa – A primeira pergunta que a leitora ou o leitor podem fazer ao que escreve é o que alguém que declarou seu ateísmo em outros textos estaria fazendo no serviço dominical de um templo católico. A resposta só pode ser dada por quem já superou a mera repulsa aos aspectos exteriores da religião e, tendo adquirido o senso crítico diante dos sermões e compreendido as incontáveis determinações materiais e antropológicas que resultam no que se presencia em um culto, vê a este mais como uma bela manifestação artística, semelhante a um concerto, uma exposição de arte ou mesmo à narração de contos literários, do que como algo realmente sobrenatural e, por isso mesmo, inevitavelmente maligno.

Deve-se dizer ainda que é tranquilizante, às vezes, descansar das críticas materialistas à fé católica e simplesmente vivenciar o momento presente e a convivência com pessoas desinteressadas e familiares, porque o ódio não faz relaxar e nos cega ao desfrute de presenciar o desfile simultâneo, em apenas uma hora e na era da banda larga, de inúmeras culturas da Antiguidade e da Idade Média, cujo estudo ainda não está difundido à maioria da população, com seus deuses, roupas, gestos, alimentação, filosofia e língua. Uma verdadeira aula de história gratuita!

As pessoas “incultas” estão sendo “enganadas”? Ora, lembremos que a Igreja Católica não é um bloco monolítico – assim como nunca o foi o mundo do “socialismo real” – e que seus frequentadores mais comuns hoje são pessoas de cabeça aberta e sincrética e mais preocupadas com o pão do dia seguinte do que com a “compra” de terrenos no céu.

Einstein e suas aspirações – A leitura de um livro em especial – e a lembrança que ele me evocou de outras leituras – me fez criar uma forte associação entre os pensamentos religiosos de um formidável cientista e a homilia daquele domingo: é Einstein e a religião, de Max Jammer, editado no Brasil em 2000 pela Contraponto. Eu já havia travado conhecimento com o livro Como vejo o mundo, também de Einstein, e suas ideias, logo no início da obra, a respeito da condição humana, dos valores existências do físico alemão e de sua tão comentada e controvertida “religião cósmica”, que deu ensejo tanto a imputações de ateísmo quanto de teísmo ou de panteísmo.

Aqui não é o espaço para se destrinchar tal filosofia complexa e edificante, o que Jammer já faz com inimitável maestria, mas algumas mensagens básicas de Einstein me têm ocupado a mente nesse processo intelectual. O criador da “teoria da relatividade” afirmava desprezar, desde moço, os objetivos humanos puramente materiais, mesquinhos e passageiros, como a glória, a fama e o poder, e pensava que a pessoa verdadeiramente religiosa era aquela que se havia libertado de seu “eu”, entrando em sintonia e fusão com o universal, o todo da humanidade e a essência verdadeiramente eterna e incompreensível por trás das leis perfeitas e imutáveis da natureza, essência que não raro foi considerada como o “Deus einsteiniano”.

Se forem levados em conta, ainda, os exemplos que Einstein deu em sua vida e que são relatados em suas muitas biografias, notam-se também um imenso desprendimento do luxo e da celebridade, uma ânsia ininterrupta de levar uma vida simples e comedida e uma explícita humildade de caráter e de conduta. Em suma, estamos diante de um exemplo teórico e prático de economia material e espiritual e de uma lhaneza interna e externa bem refletida na qualidade de seu trabalho científico.

O cristianismo e o estresse – Passando para a mídia atual, tem-se, ainda que de forma bastante incipiente, representantes dos diversos cristianismos alertando para os riscos do concorrentismo capitalista e de suas nefastas consequências no padrão de vida da população mundial, seja na deterioração de valores éticos e das condições psicofísicas, seja na destruição dos recursos naturais e da biodiversidade. Um exemplo notável, ainda que tardio, é a Campanha da Fraternidade promovida pela CNBB para 2011, com o tema “A criação geme em dores de parto”, relativo à poluição atmosférica e hídrica, à extinção de florestas e de espécies animais e às consequentes alterações das condições climáticas e do ritmo ecossistêmico do planeta.

Por outro lado, e aqui assumo o risco de ser tendencioso, a maioria das igrejas evangélicas, sobretudo as pentecostais e as neopentecostais, com largo alcance na televisão, no rádio e na internet, mantêm-se distantes das preocupações sociais que não concirnam a seus próprios interesses políticos – à exceção de iniciativas esporádicas, mas não generalizadas, de combate à miséria, à orfandade e à marginalização civil – e ainda atraem seguidores com a promessa de prosperidade financeira, pessoal e profissional, sem qualquer esforço adicional além do sacrifício de boa parte de suas economias às denominações nem a previsão das consequências de uma ascensão tão súbita.

Se a Igreja Católica lhes “cede” membros por não oferecer soluções imediatas para os tormentos cotidianos, ao menos tem colaborado de modo decrescente com os grandes capitalistas na aceleração do pensamento dos trabalhadores, no fomento da luxúria e da busca desenfreada por dinheiro e na falta de previsão de gastos, metas futuras e resultados dos excessos. No fundo, opõem-se um cristianismo “terreno” demais e outro um pouco mais “celeste”.

O papel da existência de Deus – E Deus, estaria ligando para a correria do dia a dia e para a caça humana cada vez mais desenfreada ao progresso e à vitória a qualquer custo? Ele poderia ajudar a encerrar essa correria e retornar a civilização a sua velocidade primitiva? Bem, primeiramente se deveria definir de qual Deus estamos falando: do Deus que prometeu um país e uma ampla descendência a um povo pequeno e oprimido, do Deus que redimiu o mundo do pecado e o salvou por meio do sacrifício de seu filho único ou do Deus que falou aos homens do deserto e incitou-os a conquistar o máximo possível de terras conhecidas à sua fé e à mensagem da única e onipotente divindade?

Obviamente são considerados, aqui, os dogmas internos, e não os condicionamentos mútuos entre essas três crenças ou de sua parte visível por influências de outras culturas e hábitos. O que ocorre, de fato, é a criação de deuses de acordo com as necessidades e prioridades de cada conglomerado, de forma que presenciamos, na história do ser humano, desde a “ingerência” de deuses que curavam doenças por meio da incorporação em iniciados extasiados ou que guerreavam junto com os soldados que os cultuavam até os “milagres” de um deus que distribui bênçãos e graças em troca de dinheiro vivo e abundante.

Infelizmente, são poucas as esperanças de uma intervenção sobrenatural para o fim do estresse e do gládio entre os indivíduos, pois, a cada vez que uma nova classe ascende ao controle de uma sociedade, ela trata de criar entidades e rituais sagrados que representem seus próprios ideais e empurram-nos goela abaixo das massas dominadas. Assim, parece que, até ser criado um Deus da tranquilidade e da moderação, a humanidade já estará quase destruída pela ambição e pelo tecnicismo cego.

Os valores de longo prazo – Está bem claro, agora, que apesar do renascimento religioso e dos misticismos surgidos, volta e meia, na forma de barulhentos best-sellers, a maioria dos cidadãos comuns dos países ocidentalizados perdeu os valores mais básicos que os uniam entre si, com o meio-ambiente e com os outros terráqueos, e perderam até mesmo a capacidade de criar e recriar aquilo que lhes é realmente sagrado. A ética se resume às regras de “ter” e de “parecer”, de possuir riquezas ou de passar uma falsa impressão de que se as tem, por meio do engano e do autoengano, em um sistema moral não ensinado, mas vendido, não adotado pela persuasão interna, mas pela coerção externa.

A pressa imposta pela rapidez do trabalho e do estudo e pelo bombardeio das crianças e dos adolescentes com uma quantidade inassimilável de informações, aliada, às vezes, a predisposições genéticas, gera cada vez mais ansiedade, depressão e outras doenças psíquicas que fazem cada vez mais vítimas no plano físico e mental. Como resultado da mesma saturação e resultando nos mesmos males, o espírito de competição, extravasado do nível saudável à compulsão doentia, extingue os últimos resquícios de cooperação e respeito ao próximo das culturas tradicionais e descamba no bullying infanto-juvenil, na criminalidade, na trapaça e no preconceito adultos e no abandono durante o que a propaganda chama, ironicamente, de “melhor idade”.

Como síntese desse desespero espiritual, o presente é deixado de lado, remói-se o passado, preocupa-se em demasia com o futuro e o mediato, o inalienável, o justo e o holístico são menosprezados em prol do rápido, do excitante, do superficial e do eficiente. A sociedade, sem paciência para escutar e pensar sobre si mesma, não edifica estruturas sólidas sobre as quais se assentar e a chamada literatura “pós-moderna” é menos um acinte à intelectualidade do que a descrição fiel de um mundo caótico que precisa dar-se conta disso para reinventar-se.

Conclusão – Se eu pregasse um retorno maciço de adeptos à Igreja Católica, a esta ou aquela religião, ou o abraçamento desta ou daquela ladainha sobrenatural, estaria mentindo para mim mesmo e trapaceando aqueles que pretendo ajudar. Contudo, à exceção dos cúmplices do materialismo ingênuo e dos perpetuadores de desavenças e hierarquizações, sejam crentes ou apóstatas, sejam capitalistas ou socialistas, creio que nada pode separar aqueles que lutam pela integridade individual, pelo amor sem limites, pelo prazer sem tabus, pela moderação dos impulsos irracionais e pela liberdade de conhecimento, de expressão e de crença.

Mas nada disso pode ser pensado sem os pés fincados na atualidade e sem uma largueza de visão direcionada à posteridade, para que, apesar das forças contrárias, crie-se uma aldeia global simultaneamente humilde e rica, desça-se o que é santo dos altares para as ruas e impere não uma filosofia celestial, porém imediatista, mas uma filosofia terrena, porém longeva e solidária.



quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Karel Gott – Měl jsem rád a mám (1975)


Endereço curto: fishuk.cc/gostei


Estou continuando a coleção lançada no início de 2018 com nosso célebre croata Vice Vukov, após notar que a música brasileira em 2017 tinha se tornado um verdadeiro lixo. E, pelo que constatei, ela piorou ainda mais em 2018, sem perspectiva boa pra 2019, por isso decidi seguir minha missão. Vou redescobrindo pérolas populares e românticas do mundo eslavo, pra que possam inspirar nossos artistas e agradar a todo brasileiro.

Esta é a primeira canção que traduzi diretamente do checo, se não contarmos o próprio hino da Chéquia, pro qual, porém, contei também com outras traduções. Desta vez eu mesmo traduzi do próprio original, sem cotejar com outras versões, usando minha experiência de estudo autodidata desde outubro de 2017 e o conhecimento adquirido após ter traduzido uma peça teatral completa do checo de outubro a dezembro de 2018. O nome desta música, surgida ainda na extinta Checoslováquia, é Měl jsem rád a mám (Gostei e ainda gosto), na voz de Karel Gott, considerado o maior cantor nacional.

A versão original de 1974, chamada Soleado, era apenas melódica, e foi composta pelos italianos Ciro Dammicco (n. 1947) e Dario Baldan Bembo (n. 1948), baseada em outra composição deles de 1972, Le rose blu, com letra de Alberto Salerno (n. 1949) e Francesco Specchia (n. 1929). A mais recente foi gravada primeiro pelo conjunto italiano Daniel Sentacruz, do qual Dammicco era integrante, mas a “letra” era apenas vocalização das mulheres. Em seguida, a canção se tornou um sucesso internacional, e em 1974 recebeu em alemão a primeira letra, à qual seguiriam as de outras línguas. Em checo, a letra foi escrita por Zdeněk Borovec (1932-2001) e gravada por Karel Gott em 1975.

Gott (n. 1939), que nasceu durante a ocupação nazista, é considerado o maior cantor masculino de língua checa, mas com grande sucesso também nos países de língua alemã, na qual ele também canta (Gott significa “Deus” na língua alemã). Ele também é pintor amador, e sua formação foi como eletricista, mas ficou célebre por meio da música, começando a carreira de cantor profissional em 1960. O deslanche de sua trajetória foi nos anos 70, tendo gravado muitos álbuns e inclusive sendo lançado na URSS em 1977, em cujos futuros países ele seria também admirado. Gott, que tem um site oficial em checo, encerrou a carreira em 1990, mas retornou em 1993, embora naquela década se focasse mais na pintura e nas exposições que realizou.

Eu copiei a letra original desta página, mas tive ainda que fazer umas poucas correções. Nesta página, especializada em resgatar originais que depois foram muitos traduzidos, encontrei algumas informações adicionais sobre a canção. Este outro site também tem muita coisa de Karel Gott, como biografia, fotos, letras de música, pinturas etc. Em 1975, Moacyr Franco também gravou sua própria versão no Brasil.

Seguem abaixo minha legendagem dupla com montagem em checo e em português, o texto original checo e a tradução em português. Vejam o vídeo duas vezes, lendo uma legenda de cada vez:



Há também outro vídeo, que baixei sem legendas e cortei apenas o começo e o término sem música, em que Gott está participando do programa de TV especial Karel Gott opět ve Slaném (Karel Gott novamente em Slaný, 1994), com banda regida por Pavel Větrovec (veja a íntegra). Nesse ano, o antigo país já tinha se desmembrado em Chéquia (capital Praga) e Eslováquia (capital Bratislava). O nome do programa faz referência a uma transmissão regular em que Gott era a estrela principal, de 1973 a 1978, Karel Gott ve Slaném, gravado no teatro da cidade de Slaný:


Na kterou z vás vzpomínám si říct,
Na kterou z vás, netroufám si říct.
Óo, lásky mé, čas mě táhne k vám,
Váš smích i pláč měl jsem rád a mám.

Já fotek tvých plnou měl jsem skříň,
Jak jsem byl stár? Sedmnáct či míň?
Óo, lásko má, kde teď jsou, se ptám,
Jen úsměv tvůj měl jsem rád a mám.

Ty vílo z hor, měňavá jak sníh,
Tvůj vzdech se vpil do polštářů mých,
Óo, lásko má, pak jsem spal v nich sám,
Jen povzdech tvůj měl jsem rád a mám.

Ty krásko zlá, zvyklá pouze brát,
Dík tobě já poznal jsem i pád.
Óo, lásko má, tisíckrát mě zklam,
Vždyť vůni tvou měl jsem rád a mám.

Ty kvítku můj, o němž se mi zdá,
Snad někdy též zklamal jsem tě já.
Óo, lásko má, vinu svou už znám,
Tím víc tvou tvář měl jsem rád a mám.

Na kterou z vás vzpomínám teď víc,
Na kterou z vás, netroufám si říct.
Óo, lásky mé, čas mě táhne k vám,
Váš smích i pláč měl jsem rád a mám.

Óo, lásky mé, čas mě táhne k vám,
Váš smích i pláč měl jsem rád a mám!

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Com qual de vocês me lembro de falar,
Com qual de vocês, eu não ouso falar.
Oh, meus amores, o tempo me puxa a vocês,
Gostei e ainda gosto dos seus risos e choros.

Eu tinha o armário cheio de fotos suas,
Qual era minha idade? Dezessete ou menos?
Oh, meu amor, pergunto onde estão agora,
Mas gostei e ainda gosto do seu sorriso.

Oh, fada dos montes, brilhante como a neve,
Meus travesseiros absorveram seu suspiro,
Oh, meu amor, depois dormi neles sozinho,
Mas gostei e ainda gosto da sua respiração.

Oh, beldade má, habituada a ter tudo,
Agradeço a você até mesmo pela queda.
Oh, meu amor, me desaponte mil vezes,
Mas gostei e ainda gosto do seu cheiro.

Oh, florzinha minha, que vejo em sonho,
Talvez um dia também desapontei você.
Oh, meu amor, já sabendo de sua culpa,
Tanto mais gostei e ainda gosto da sua face.

De qual de vocês mais me lembro agora,
De qual de vocês, eu não ouso falar.
Oh, meus amores, o tempo me puxa a vocês,
Gostei e ainda gosto dos seus risos e choros.

Oh, meus amores, o tempo me puxa a vocês,
Gostei e ainda gosto dos seus risos e choros.



segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

A possibilidade do Estado laico (2011)


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NOTA: Este é outro texto que escrevi no começo de 2011 e revisei levemente em 2012, pra postá-lo iniciamente no blog Materialismo.net. Minha intenção nestes dias é revezar postagens de textos antigos meus com traduções e conteúdos novos. Naquela época, quando eu estava chegando ao fim da graduação em História e lendo muitos livros sobre política, filosofia e marxismo, sem estar ainda influenciado pelos estresses das redes sociais, teci muitas reflexões pessoais sobre esses temas e guardei os textos pra mim. Eu também estava em processo de ruptura filosófica com o catolicismo, e atento aos debates “neoateus” que então ocorriam em redes sociais antigas, era muito interessado pelo tema da laicidade estatal. Influenciado, além disso, pela visão gramsciana da sociedade como um complexo orgânico, eu imaginava suas instituições como fluidas e com fronteiras instáveis, algo que hoje não penso ser exatamente assim. Esse meu “marxismo” nunca foi partidário ou militante, e mesmo puramente intelectual, me deu base pra futura vida acadêmica. Vejo agora essas ideias como um tanto utópicas, mas sem mudar o texto, ainda as subscrevo na íntegra.



Uma das questões mais candentes do atual pensamento social é a da necessidade de que todo Estado deve ser laico para garantir liberdade de crença e igualdade de condições na profissão de seus cultos, para que não haja conflitos religiosos – por vezes violentos – e que nenhuma religião se sobreponha às demais por meio da máquina estatal. Porém, antes de mergulhar de cabeça nessa luta, é preciso fazer uma análise realista que avalie a real possibilidade de haver uma total separação entre Igrejas e Estado e, assim, traçar as diretrizes de ações políticas eficazes e sóbrias.

Numa perspectiva histórica, nota-se que a separação entre religiões e poder político institucional é algo muito recente, portanto pensá-la como dada há muitos séculos é um anacronismo. Nas primeiras civilizações e na Antiguidade Clássica – e mesmo, lembre-se, entre povos ditos primitivos –, não havia uma distinção muito nítida entre as funções de governança e de regência sobrenatural, e, quando os líderes espirituais não faziam parte da instância governamental, o próprio chefe da comunidade exercia o mando sobre a forma, o conteúdo e o andamento dos rituais – e é algo que se vê até hoje, de certa forma, na Inglaterra e na maioria dos países nórdicos.

Com o advento dos primeiros reinos cristãos da Idade Média e o crescente poder papal, a religião passou a adquirir um formato mais independente, mas ainda mantinha sob seu domínio as esferas da orientação moral daqueles soberanos e da educação. Apenas entre o Renascimento e a Revolução Francesa é que vários campos do conhecimento passaram a destacar-se da fé – embora sem sair totalmente de sua influência –, grosso modo na seguinte ordem: arte, política, ciência, filosofia e ensino.

A “descristianização” do Ocidente é um fenômeno tardio, do século 20 – apesar de ter sido gestado no anterior –, e seria muito pedir que todas aquelas áreas também hoje não sofressem séria influência do cristianismo e que este não continuasse sendo uma força cultural considerável. Um último aparte: deve-se restringir essa análise ao mundo de cultura ocidental, pois em muitos outros lugares não houve ainda essa cisão entre religião e outras práticas sociais.

A análise da sociedade ocidental contemporânea mostra que as religiões cristãs prosseguem como uma voz muito poderosa e considerada na tomada de decisões que afetem o grosso da população, que, na Europa, ainda é, em grande parte e em diversos matizes, seguidora de Jesus. As Igrejas são um forte “aparelho privado de hegemonia”, ou seja, como componentes da “sociedade civil” – o que significa que intermedeiam as relações entre as pessoas comuns e a “sociedade política”, o Estado propriamente dito –, têm o poder de influenciar a opinião comum e, por esse meio indireto ou por meios diretos, direcionar ou condicionar as decisões públicas conforme sua vontade ou seus interesses. Se isso ocorre para o bem ou para o mal, não é algo em questão aqui; este texto visa fazer um rascunho de análise materialista, quer dizer, científica, do tema, e não uma valoração filosófica.

Em poucas palavras, o fato é que as religiões, acima de tudo as cristãs, possuem um peso que não pode ser desconsiderado na hora de traçar planos políticos alternativos ou institucionais, e sua penetração nos poderes Executivo e Legislativo é considerável, seja nas comissões parlamentares constituídas para a orientação a determinadas legislações, seja nas bancadas religiosas formadas nas câmaras e nas assembleias, seja nas demonstrações de fé que os governantes encenam para atrair a simpatia de seus eleitores ou governados, seja na reverência que presidentes, governadores e prefeitos prestam aos clérigos em reuniões oficiais ou outras ocasiões, nas quais ambos prometem conciliar suas metas e, assim, comprometer-se à manutenção material e moral de seu interlocutor.

O Estado e as Igrejas, sobretudo as majoritárias em determinado país ou região, funcionam umbilicalmente e, repartindo o controle dos corpos e das mentes do povo, atuam sob um mesmo modelo de negociação, barganha, “guerra de posições” e apelo ao emocional ou ao irracional. Essa aliança, forjada em milênios de colaboração entre os poderes ou âmbitos temporal e espiritual, não pode ser rompida por nenhuma revolução ou decreto; ainda que tal dedução nem sempre tivesse sido feita, a política nasceu no bojo da religião, e vice-versa. A principal consequência disso é que, se uma desaparecer, a outra desaparecerá junto.

Cabe dizer, portanto, que apenas uma superação dos atuais modelos de política e de religião fará com que o problema do Estado laico seja igualmente superado; na verdade, como é de se esperar, esse problema também se extinguirá. Uma vez que não haverá uma instituição política onipotente para bajular o sacerdócio, e que não haverá ajuntamentos religiosos para ordenar seus fiéis a “dar a César o que é de César”, a autogestão popular, instruída por um ensino escolar livre de compromissos e de formatações, dará conta de suprir as necessidades práticas e transcendentais de todas e todos: o controle dos meios de vida, diálogo e reprodução científica e econômica por seus próprios usuários e a ciência das formas particulares de cada um de alcançar o mais completo prazer erótico-estético, dois campos que se complementam na formação de nossa condição humana, serão, respectivamente, as características objetivas e subjetivas que manterão as pessoas em paz consigo mesmas e, portanto, com seus semelhantes.

Enquanto esse sonho distante não se concretiza, pode-se considerar que o Estado laico, realizado ao menos na teoria, é uma solução temporária de compromisso, apesar de tênue, para evitar – o que, como se nota, nem sempre ocorre – a apropriação das esferas públicas por interesses privados e a marginalização de grupos ideológicos minoritários por outro mais potente.

É plausível afirmar, num campo ideal, que a expressão “Estado laico” é uma contradição, pois se tanto as Igrejas quanto a política institucional nascem dentro de um mesmo caldo cultural, é óbvio que um lado procurará influir no outro, deverão acordar entre si para viver juntos e, como que “por osmose”, intercambiarão suas características, objetivos e visões de mundo. Mesmo não professando nenhum credo específico, cada governo se guiará por determinados valores “sagrados”, às vezes caros também à nacionalidade, e não apenas para o grupo que a dirige, nem sempre coincidentes com as vontades e carências das massas, o que torna o Estado uma entidade claramente confessional.

O mais importante, em qualquer ocasião, é que a “sociedade civil”, sem qualquer restrição ditatorial imposta pela “sociedade política”, possa servir como campo de acordos e conversações entre os diversos grupos sociais a fim de se atingir tolerância mútua, e, acima de tudo, que as aspirações coletivas não sejam sufocadas nem tenham seu substrato material furtado por picuinhas esotéricas.


Bragança Paulista, 6 de fevereiro de 2011.
Levemente alterado a 21 de maio de 2012.



sábado, 5 de janeiro de 2019

Putin deseja feliz Ano Novo 2019


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Eis o discurso de Ano Novo pronunciado pelo Presidente de Todas as Rússias, Vladimir Putin, desejando que todos os cidadãos tenham um próspero 2019. O discurso mesmo é bem curto, mas o vídeo original, transmitido pelo Canal 1 estatal, tem ainda uma abertura alongada por várias repetições da Marcha Presidencial e, no final, o Hino Nacional da Rússia tocado e cantado, com filmagens noturnas do Kremlin e arredores de Moscou. Não legendei o hino pela razão óbvia de que já fiz vários vídeos com ele, e o discurso de Putin eu mesmo traduzi direto do texto original em russo.

Esta é a primeira vez que traduzo e legendo um discurso de Ano Novo de um presidente da Rússia, ou mesmo de um chefe de Estado da antiga URSS. Antes, os discursos, mesmo que filmados, eram tirados de ocasiões diversas, mas nunca do Réveillon, sendo que na Rússia essa data mesma é considerada mais importante do que os próprios natais católico e ortodoxo (este, comemorado com atraso de 13 dias). Vladimir Putin costuma falar bem pouco, e o resto fica por conta da beleza das paisagens da capital russa, além de um dos sons mais lindos da Terra, na minha opinião, que é o badalar do carrilhão do Kremlin, com seu enorme relógio. O discurso deste ano possui um significado especial, porque 2018 foi um ano de muitas turbulências internas e externas na Rússia, da Copa do Mundo FIFA às eleições presidenciais, passando pelas sanções ocidentais e a crise econômica.

As eleições deste ano sagraram Putin como o mandatário definitivo do país, sem mínima possibilidade de outros candidatos concorrerem: seu maior contestador esteve preso, e os outros não têm amparo popular. Mesmo assim, os 66% de votos e o alto índice de abstenção passam longe da imagem de uma república plebiscitária, embora nos fatos o partido Rússia Unida e seu ídolo controlem a maioria das instituições. Permanecem muitos hábitos da era soviética, e a corrupção e o burocratismo seguem sem solução. Por outro lado, pesquisas recentes têm mostrado que a nostalgia dos russos pelo período comunista atingiu um máximo histórico, mesmo entre aqueles que não eram nascidos. Isso se explica porque Putin está gradualmente fazendo reformas, em plena Copa do Mundo, em alguns direitos básicos, como a previdência, causando a ira nacional. Nos últimos anos, os russos têm sentido seu padrão de vida cair, ante a queda no preço do petróleo e as sanções econômicas impostas pelos EUA e pela União Europeia.

Essa ira do Ocidente está relacionada também com algo que está desgastando a imagem e a saúde de Putin: as tensões com a Ucrânia e o apoio a separatistas no leste do país vizinho, de maioria linguística russa. Claro que a fonte maior de brigas tem sido a anexação da Crimeia (também de maioria russa) por Moscou, enquanto Kyiv se via às voltas com Euromaidan e a renúncia do presidente Ianukovych. O atual presidente nacionalista, Petró Poroshenko, agora tem brigado por causa de disputas navais no estreito do mar de Azov, que é “fechado” por uma estreita faixa de terra que liga a Crimeia a um pequeno território russo local. A ponte que Putin construiu ligando os dois lados consumiu escassos recursos financeiros, que junto com as aventuras militares na Síria em apoio a Bashar al-Assad deixaram pouco espaço pras pensões e aposentadorias, que há tempos estão congeladas.

É com tudo isso no pensamento que o Presidente de Todas as Rússias chama o povo a se unir num só esforço pra reconstruir a economia e fazer avançarem a ciência e a tecnologia. Os russos devem encarar-se com espírito de carinho e fraternidade, e manter isso durante o ano inteiro. Só que na aparência, Putin não está mantendo isso nem nas relações políticas, nem mesmo neste discurso: vejam como apesar das belas palavras, a locução parece ríspida, e a expressão facial parece brava. O ritual tem um quê de forçado, e Vladimir Vladimirovich sabe que é difícil falar essas coisas a um público que lhe vê de forma oposta. Tanto que no vídeo original, o número de descurtidas (não gosto) supera muito o de curtidas (gosto), seja por espectadores que externam em silêncio suas visões, seja por caravanas de ucranianos que podem ter combinado os dislikes em massa.

Seguem abaixo as legendas, o texto original em russo, que copiei aqui porque a fonte dele parece um pouco instável, e a tradução em português. Fiz poucos reparos no próprio original russo, e em português o conteúdo abaixo está menos resumido do que no vídeo e tem pequenas correções que só agora percebi serem necessárias:


Estimados cidadãos da Rússia, caros amigos! O tempo nos aproxima do novo ano de 2019. Fica para trás um dezembro rico e cheio de problemas, no qual corremos para cumprir tarefas inadiáveis, definimos planos para o futuro e, claro, nos preparamos para festejar. E com ansiedade e esperança, aguardamos agora o início do novo ano. Vemos os olhos maravilhados dos meninos; sentimos como ficam felizes os pais, avós e avôs se toda a família está reunida neste momento, e como a ternura e a atenção esquentam seus corações. E ficamos sabendo que isso é a magia de Ano Novo, surgida quando temos o espírito generoso. Ele é exigido quando festejamos e quando trabalhamos, ao ampararmos aqueles que precisam de ajuda, que estão sozinhos ou doentes. Pois os males do outro nunca nos são alheios, e a caridade sempre é paga com o bem, nos concede a alegria de sermos cúmplices.

Caros amigos! Cada um de nós têm agora esperanças próprias, mas todos fazemos muita questão de que nossos próximos tenham saúde, de que em casa reine a concórdia, de que os filhos sejam felizes e de que os sonhos, mesmo os mais profundos, de fato se realizem. Na noite de Ano Novo, como na infância, nós traçamos planos, esperamos por sorte e sucesso. E que assim seja. Mas apesar disso, sabemos bem que conseguir o melhor para si, para sua família e para o país natal só é possível com os próprios esforços e com um trabalho comum em boa ordem. Temos pela frente a resolução de muitas tarefas essenciais na economia, na ciência e na tecnologia, na saúde, na educação e na cultura. E a principal delas será conseguir aumentar gradualmente o bem-estar e a qualidade de vida, para que todos os cidadãos da Rússia, cada um de nós, já sintam no ano que começa as mudanças para melhor. Somente juntos podemos fazer isso. Nunca tivemos e nunca teremos ajudantes. E por isso é importante sermos como uma equipe coesa, unida e forte. E que a amizade e as boas esperanças que estão agora unindo todos também nos sigam no futuro, ajudem no trabalho e na conquista dos objetivos comuns.

Caros amigos! Apenas alguns segundos nos separam do novo ano de 2019. Vamos desejar felicidade àqueles que estão ao nosso lado, dizer a todos os queridos nossos as mais calorosas palavras, parabenizar nossos pais, abraçar os filhos com ternura e força, abrir nossos corações ao encontro uns dos outros. Pois quando milhões de pessoas experimentam essas sensações radiantes, o mundo fica cheio de amor e confiança.

Desejo sinceramente a vocês alegria e prosperidade, e à nossa pátria, nossa amada Rússia, sucessos e florescimento. Boas festas, feliz Ano Novo de 2019!


Уважаемые граждане России! Дорогие друзья! Время приближает нас к новому 2019 году. Позади насыщенный, полный забот декабрь, когда мы торопились завершить неотложные дела, уточняли планы на будущее и, конечно, готовились к празднику. А сейчас мы с волнением и надеждой ждем наступления нового года. Видим восторженные глаза малышей; чувствуем, как рады родители, бабушки и дедушки, если вся семья в эти минуты вместе, а их сердца согреты чуткостью и вниманием. И понимаем, что вот оно – новогоднее волшебство, и создает его наша душевная щедрость. Она востребована и в праздники, и в будни, когда мы поддерживаем тех, кто нуждается в помощи, кто одинок или болен. Ведь чужой беды действительно не бывает, а милосердие всегда откликается добром, дарит радость соучастия.

Дорогие друзья! У каждого сейчас свои ожидания, но по большому счету все мы хотим, чтобы близкие были здоровы, чтобы в доме царило согласие, дети радовали, а мечты, даже самые сокровенные, обязательно сбывались. В новогоднюю ночь, как в детстве, мы загадываем желания, ждем везения и удачи, и пусть они будут. Но все же мы точно знаем, что добиться лучшего для себя, для своей семьи, для родной страны можно лишь собственными усилиями, общей слаженной работой. Нам предстоит решить немало насущных задач в экономике, науке и технологиях, в здравоохранении, образовании и культуре. И главное – шаг за шагом добиваться повышения благосостояния и качества жизни. Чтобы все граждане России, каждый из нас, уже в наступающем году почувствовал перемены к лучшему. Сделать это можем мы только вместе. Помощников у нас никогда не было и не будет. И поэтому нам важно быть сплоченной, единой, сильной командой. И пусть дружба и добрые надежды, которые объединяют всех сейчас, сопровождают нас в будущем, помогают в работе, в достижении общих целей.

Дорогие друзья! Всего несколько секунд отделяют нас от нового 2019 года. Давайте пожелаем счастья тем, кто рядом, скажем всем, кто дорог, самые теплые слова, поблагодарим родителей, нежно и крепко обнимем детей, раскроем свои сердца навстречу друг другу. Ведь когда миллионы людей испытывают такие светлые чувства, мир наполняется любовью и доверием.

Искренне желаю вам радости и благополучия, а нашей родине, нашей любимой России – успехов и процветания. Поздравляю вас с праздником, с новым 2019 годом!



quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Abolição da ciência e da política (2011)


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NOTA: Estou voltando a publicar reflexões juvenis minhas colocando juntas política e religião. Já botei aqui algumas que achei melhores, mas meu plano agora é postar tudo o que tenho e ainda pode ser reaproveitado. O início de 2011 foi um tempo especial pra mim, pois além de ser o começo de uma nova década, eu estava entrando em contato com novas tecnologias, que hoje na verdade já estão até obsoletas. Além disso, eu tinha terminado todas as minhas matérias da graduação, tendo feito em 2010 duas matérias com um professor marxista da área de Educação, e no novo ano eu só faria meu TCC (monografia). Mais contato com o marxismo, mais reflexão irreligiosa, mais leituras que mudavam minha maneira de pensar. Relendo hoje, as ideias parecem bem utópicas e pouco realizáveis, mas é incrível como eu articulava bem os conceitos e enxergava algo além da nossa pura realidade. Quem me vê em outras mídias vai achar interessante essas adesões, e de fato ainda subscrevo os argumentos, embora com menos ousadia política. Republico sem alterações.



Muito se discutiu, nos círculos anarquistas e marxistas, a abolição do Estado como fase final da emancipação humana. Porém, mais do que pensar apenas no Estado como motivo de opressão e como alvo da revolução social, trata-se ainda de pensar a ciência e a política institucionais, em todas as suas manifestações abstratas e reais, como partes de um mesmo paradigma que deve ser superado em prol da auto-organização das comunidades humanas. Consequentemente, abre-se a possibilidade de se redefinir e democratizar as práticas científicas e políticas e, assim, minar a separação entre teoria e prática na convivência social.

A ciência se diz “universal” e a política se diz voltada “para todos”, e ambas se encastelam numa esfera dita “pública” representada institucionalmente pelo Estado. Contudo, esse caráter “democrático” da ciência e da política é falso, pois dentro de cada uma ainda existe a separação entre executores e planejadores, enquanto econômica e politicamente elas servem a poucas pessoas, e não à totalidade da população mundial. Tal constatação de ordem prática não leva em conta a natureza epistemológica da ciência, que é atualmente definida independentemente de análises sociais. Mesmo assim, essa suposta abrangência “democrática” ainda é prejudicada pelo fato de também apenas alguns iniciados participarem das decisões a respeito dessa esfera pública (pública porque se afirma abrangente e válida para todos), da qual, em última instância, a ciência é a guia teórica e a política, a condutora prática.

A despeito dessa pretensa universalidade, e tem-se aqui a segunda constatação de ordem prática, o que termina por de fato mover e dar vida às comunidades humanas não é sua esfera pública ‒ ou Estado ‒, mas sua esfera privada ‒ ou as pessoas, famílias e grupos coletivos que as compõem. O Estado se torna não mais do que um demiurgo cujos regulamentos, embora se suponham fruto de um acordo comum, não se identificam nem servem a ninguém, e, assim, ao invés de representar uma solução para os conflitos humanos, torna-se um peso morto. Mesmo que a assim chamada “sociedade civil” não se declare explicitamente um organismo independente composto de partes que somente funcionam em conjunto, tal é sua definição. Apesar das leis e sanções impostas por um corpo que lhe é estranho, ela possui regras e mecanismos próprios, muito bem viáveis sem a presença daquele. O problema surge quando os interesses coletivos e individuais se chocam entre si, mas isso será tratado adiante.

Cruzadas essas duas constatações, pode-se passar para o plano da teorização social-científica com vistas a uma transformação da realidade. Antes de mais nada, entre os vários matizes da esquerda, a questão de como se chegaria a uma sociedade comunista ou à abolição do Estado nunca optou definitivamente pela revolução social ou pela evolução natural da história. Assim, e também porque isso constituiria matéria para outro texto, essa parte, infelizmente e contra a vontade do articulista, fica em aberto, em favor da limitação a delineamentos de uma sociedade ideal. Enfim, indo-se além da absorção da “sociedade política” pela “sociedade civil” preconizada por Gramsci – e muito bem identificada com o que foi dito acima –, tem-se ainda a absorção e a perda de sentido de tudo o que alicerçava a primeira, com o mote principal de que a população autogerida pode fazer para si tudo o que o Estado fazia para poucos. A distinção entre esferas pública e privada, para começar, não teria mais razão de ser, e o que se dizia “ciência universal” e “política para todos” se tornará ciência para (e não “de”) este ou aquele coletivo, e política para este ou aquele coletivo. Aí não há prejuízo do bem comum (para não usar o vago termo “democracia”), pois se as comunidades humanas são totalidades formadas por partes, ninguém sai perdendo, ou, como dizia Marx, “o livre desenvolvimento de cada um é condição para o livre desenvolvimento de todos”. Os limites – e ainda, deve-se reconhecer, trabalhando-se com sociedades e seres humanos ideais – seriam impostos apenas pelo quanto um coletivo restringe a liberdade e a atividade de outro ou atenta contra a integridade da pessoa humana, pois se teria então a disfunção do todo pela falência de uma ou mais partes.

A ciência e a política, além disso e por conseguinte, seriam faculdade de todos, todos se tornariam cientistas e políticos e não haveria mais a separação entre executores e planejadores dentro de cada grande área e entre as duas. Portanto, extinta a dicotomia entre teoria e prática, a ação social seria regida por uma práxis instrumental, em que a execução, nos planos subjetivo (seres humanos) e objetivo (coisas), é inseparável do planejamento. O fim do institucionalismo da ciência e da política causaria a fundição de ambas e a entrega de seus destinos nas mãos dos próprios indivíduos (famílias e pessoas) e coletivos que sofrem as consequências de suas escolhas e, portanto, devem passar a ser seus únicos beneficiários. Entre os resultados mais importantes (que, na verdade, confundem-se com as medidas para se atingir os objetivos propostos) estariam a universalização da educação, o aumento do leque de habilidades de cada membro das comunidades humanas e a liberdade de cada indivíduo ou coletivo para a fixação do próprio cronograma material e espiritual.

Hoje em dia, a grande missão dos atores políticos e dos cientistas engajados não é descobrir ou elaborar leis universais e inevitáveis que rejam ou se apliquem mecanicamente às instituições ou populações de certos países ou de todo o planeta, mas reinventar constantemente a descrição da realidade como parte de uma existência mais caracterizada pela eterna sucessão de táticas do que pelo direcionamento a uma estratégia final e definitiva. O dinamismo da tecnologia e dos movimentos humanos exige que teoria e prática atuem cada vez mais organicamente, que as grandes decisões e os grandes modelos abstratos não sejam moldados por, nem descrevam exclusivamente, as grandes instituições burocráticas e hegemônicas, mas o conjunto indivisível da humanidade, e que, acima de tudo, a geração do conhecimento e da produção material seja imediatamente universalizada sob o risco de a prosperidade e a paz sucumbirem às explosões sociais e às próprias contradições do progresso técnico.


Bragança Paulista, 18 de abril de 2011.
Revisto a 1.º de abril de 2012.



terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Canção da Tchetchênia: ‘Кӏай дари коч’

Esta é a chechena Heda Hamzatova (em cirílico russo, “Хеда Хамзатова”), com a linda canção “Кӏай дари коч” (Khay dari koç), ao pé da letra Roupa branca de seda, retrabalhada em estilo moderno. É uma letra popular, de domínio público, e fala de uma garota que rejeita o cortejo do que eu acredito ser um velho, porque ela polidamente manda-o ir cuidar da própria família. Eu me lembrei daquela velha comunidade do Orkut chamada “Eu tenho nojo de velho tarado”, mas temos aí elementos típicos da cultura caucasiana, como o rapto da esposa e as vestimentas brancas do homem, com cintos ou faixas. (Em russo, a “roupa” que traduzi é platie, que também pode ser traduzida como “vestido”, mas não neste caso, acredito.)

Heda Hamzatova (conforme transliteração mais corrente) ainda parece em evidência na República da Tchetchênia, mas obviamente, o que é tendência por lá não é tendência em Moscou. Por isso, é muito difícil achar alguma coisa sobre ela, e pelo que eu pude apurar, nasceu em 1990 e hoje ainda vive em Grozny, capital da região autônoma. Eu baixei o vídeo desta página, embora eu tenha copiado as traduções em russo e inglês de um upload que depois foi apagado. Existe um ótimo canal que traduz canções locais e põe legendas tchetchenas e russas, facilitando muito o acesso, e com a versão dele eu pude fazer pequena correção num verso. A postagem mais antiga desta gravação data de 2014, mas já em 2008 havia um vídeo com a cantora ao vivo, com outro arranjo (mas os vídeos podem nem ser desses anos).

Existem contas dela em redes sociais que parecem não ter sido muito atualizadas, mas me forneceram umas informações básicas. Pra quem curte fotos, é um prato cheio: Facebook, grupo oficial no VK, outro grupo no VK e Odnoklassniki. Seguem abaixo as legendas, a letra em checheno e a tradução em português:


Кӏай дари коч
Ма йохалахь
Шуьри доьхки ма дехкалахь
Йига дагахь лелаш вацахь
Тхан хи йисте ма хитталахь
Йига дагахь лелаш вацахь
Тхан хи йисте ма хитталахь

Кӏай дари коч йухур ма яц
Шуьри доьхки доьхкур ма дац
И бабби йоӏ я дазоехь
Маьлхан дуьне дуур ма дац
И бабби йоӏ я дазоехь
Маьлхан дуьне дуур ма дац

Цхьа чоь йуьззан доьзал бу хьа
Кхаба езаш зуда ю хьа
Йола бохуш еза бохуш
Суна дагар ма дийцалахь
Йола бохуш еза бохуш
Суна дагар ма дийцалахь

Кӏай дари коч
Ма йохалахь
Шуьри доьхки ма дехкалахь
Йига дагахь лелаш вацахь
Тхан хи йисте ма хитталахь
Йига дагахь лелаш вацахь
Тхан хи йисте ма хитталахь

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A roupa branca de seda
Não vista ela
Não ate o largo cinto
Se você não vai se arrumar para casar
Não pare junto a nosso riacho
Se você não vai se arrumar para casar
Não pare junto a nosso riacho

Você não vai pôr a roupa branca de seda
Você não vai atar o largo cinto
Se não roubarem sua neta
O mundo ensolarado não vai ruir
Se não roubarem sua neta
O mundo ensolarado não vai ruir

A sala está cheia de filhos seus
Você deve conservar sua esposa
Não se declare mais para mim
Falando “Case-se comigo”, “Eu te amo”
Não se declare mais para mim
Falando “Case-se comigo”, “Eu te amo”

A roupa branca de seda
Não vista ela
Não ate o largo cinto
Se você não vai se arrumar para casar
Não pare junto a nosso riacho
Se você não vai se arrumar para casar
Não pare junto a nosso riacho



quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Por que escolhemos o mundo? (2011)


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NOTA: Eis o segundo de dois textos antigos meus, que republico aqui e que tratam de questões ligadas ao ateísmo e ao Estado laico. Datam de uma época em que eu progressivamente estava abandonando o catolicismo e lendo mais filosofia séria e acadêmica, quando o dito “neoateísmo” ainda era uma onda intelectual em voga no Ocidente. Hoje mesmo não gosto mais de me rotular estritamente como “ateu”, mas as reflexões desses escritos ainda são muito atuais. Recuando no tempo, a última alteração no arquivo deste artigo data de 24 de janeiro de 2011, quando minha cabeça fervia ainda mais buscando respostas sobre a fé, e eu me indignava sempre mais contra os religiosos que nos mandavam relativizar as coisas do “mundão”, da Terra. Zombando de um termo em voga na renovação carismática católica, argumentei que eu preferia viver esta vida da melhor forma possível, sem cair na depravação, mas também sem me tornar um monge castrado. Essas palavras valem igualmente pra quem tem uma crença, mas despreza o fanatismo e a estreiteza.



Escolher o mundo como objetivo e cenário de nossa vida não é uma opção voluntária, nem tampouco significa que abandonamos a busca de propósitos para nossa existência. Pelo contrário, é uma necessidade física e psicológica que exige o abandono de tormentosos fantasmas imaginários e proporciona a abertura de novos horizontes, com infinitas possibilidades de sensações e experiências, levando inevitavelmente à satisfação e à tranquilidade.

O conceito cristão de “mundo”, ou de “mundão”, na linguagem popular, relaciona-se às coisas terrenas, aos prazeres sensíveis, aos problemas reais e às paixões humanas, consequentes da queda do homem por causa do “pecado original”. Em franca oposição está o céu, o Paraíso, a presença de Deus, a perfeição e a imortalidade, objetivos dos que suprimem justamente seus prazeres, vontades e paixões a fim de transcender esta vida sofrida em busca de um post mortem constituído, em poucas palavras, da trajetória terrena virada ao avesso. Porém, tal cisão, filha legítima do dualismo platônico “alma/corpo”, com predominância da primeira, foi um resultado da crise do mundo antigo, mundano em todos os aspectos – até mesmo na religião –, da qual os problemas pessoais de Paulo de Tarso mostraram ser o fruto maior. Sua incapacidade de ter uma vivência digna não por limitações externas, mas internas, tornou-se uma ânsia em moldar o planeta conforme os próprios ressentimentos, uma recusa em aceitar o mundo como era por não se adaptar a ele.

Se, há quase dois mil anos, o progresso trazia no mais das vezes caos, instabilidade e assassinatos em massa, hoje essa não é mais a norma; nem sempre temos tantos motivos para temer mudanças, e a percepção atual do tempo acelerou-se junto com a aceleração das tecnologias. A “fuga do mundo”, se antes proporcionava segurança, saúde e paz interior, presentemente é uma fonte de ansiedades e neuroses: o meio humano nos cerca e interfere em nós de forma tão intensa que, se não estamos preparados para lidar com ele, a força do impacto atua de forma comparável à de uma grande catástrofe natural. Esse bombardeio, resultante de uma sociedade extremamente rápida e instrumentalizada, pode resultar em vícios psíquicos tratáveis apenas em um prazo de longos meses ou anos. Sob uma condição neurológica tão frágil, a criação ou introdução de vírus mentais tão poderosos quanto as obsessões anteriores, a submissão a onipresentes e onividentes “grandes irmãos” imaginários e a autoimposição de restrições e cobranças pode causar problemas psiquiátricos irreversíveis.

É por isso que a escolha pelo mundo põe-se como a única alternativa possível; ela, de fato, não é uma escolha, mas uma convocação, a única possibilidade de, pode-se dizer, vencer o próprio mundo. Não há cidades celestes e Paraísos após a morte, e mesmo que houvesse, nossa passagem pela Terra, a mais deliciosa de todas, transformar-se-ia em uma clínica de castração em série comandada por um tirano orgulhoso e egoísta e tendo como produto real uma coleção de bilhões de bonecos implicantes, carrancudos e de criatividade limitada. Encarar a realidade de frente, pensar nas verdadeiras raízes de nossos tormentos e criar soluções adequadas ao materialmente existente, o que passa pela liberdade individual e coletiva de pensamento, de reflexão, de expressão e de estudo, é o meio exclusivo de evitar o movimento circular e exponencial do surgimento de novos buracos enquanto tapamos os já eclodidos. Preme ainda a necessidade de cultivar prazeres que não causem sofrimento a outrem, de tornar a existência mais bela e rica descobrindo, sem preconceitos ou tabus, do que realmente gostamos e não gostamos, do que verdadeiramente nos faz felizes ou infelizes, de minar a insalubre monotonia cotidiana com atividades variadas que aumentem nossas habilidades e conhecimentos. Porque somente nós somos a medida de nós mesmos.

A restrição da felicidade da maioria em prol do gozo de poucos, tendo como meta o controle e a usurpação, deu-se em grande parte pela inculcação de assombrações com suposto poder de deixar viver ou fazer morrer. Embora o mito tenha surgido como expressão de nossas carências, não deixou de verter-se usualmente em nosso mais cruel carrasco.



terça-feira, 13 de novembro de 2018

Estado laico ou Estado ateu? (de 2012)


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Conversa que deu origem ao texto: fishuk.cc/laico2


NOTA: Eis o primeiro de dois textos antigos meus, que republico aqui e que tratam de questões ligadas ao ateísmo e ao Estado laico. Datam de uma época em que eu progressivamente estava abandonando o catolicismo e lendo mais filosofia séria e acadêmica, quando o dito “neoateísmo” ainda era uma onda intelectual em voga no Ocidente. Hoje mesmo não gosto mais de me rotular estritamente como “ateu”, mas as reflexões desses escritos ainda são muito atuais. O presente artigo parece tocar numa ferida exposta de nossa democracia, que é a ampla presença de religiosos, quase sempre evangélicos, no Poder Legislativo, mas em 2012 ainda era algo em início de debate. Minha réplica essencial era a um escrito de Felipe Aquino chamado “Estado laico não é Estado ateu ou pagão”, que já tem um preconceito contra o paganismo religioso como uma espécie de “desvio”. Nossos grandes dilemas agora são que não soubemos manter distintos os interesses da República e das igrejas, e que nunca emergiu um conservadorismo, nem de direita, que reivindicasse a laicidade das esferas públicas ou flertasse com a irreligião.



A colocação em debate, nas esferas governamentais, de temas considerados polêmicos por diversos grupos religiosos está levantando novamente a questão da efetiva laicidade do Estado brasileiro, da qual já tratei em textos anteriores. Os fiéis mais fervorosos afirmam que o presumido desrespeito a suas crenças faria parte de uma campanha para transformar o Brasil num “Estado ateu”, numa suposta agressão à referida laicidade.

Deve-se concordar que o Estado laico não é um Estado ateu, o qual, inclusive, seria inaceitável numa verdadeira democracia. Mas a questão é mais complicada do que parece, e envolve frequentes confusões a respeito da terminologia religiosa.

É fácil definir o ateísmo: a negação explícita do teísmo, ou seja, da crença em um ou mais deuses. É uma negação positiva: o simples ato de não crer em deuses não é uma definição precisa, pois várias outras religiões do mundo também não operam com o conceito de “deus”, o qual, assim, não pode ser sistematicamente negado por elas por ser estranho a seu universo conceitual. Essa peculiaridade, ou a mera indiferença ao problema, seria mais propriamente um não teísmo.

Também não se deve confundir crença em divindades com adesão religiosa institucional. Por um lado, muitos teístas ou mesmo cristãos livres não pertencem a nenhuma religião instituída, ou até as abominam. Inúmeros hereges famosos, falsamente tomados por ateus, eram dessa espécie. Por outro lado, o que é mais raro, nem todo ateu é anticlerical, e às vezes reconhece o papel histórico das religiões ou sua utilidade em uma ou outra esfera social.

Dito isso, nota-se que o ateísmo não é propriamente uma religião, mas, embora não deixe de se enquadrar no mundo plural da irreligião e do não teísmo, constitui ainda uma atitude positiva diante da religiosidade. Embora as religiões instituídas sejam poderes materiais objetivos, a escolha por uma ou outra advém de fatores subjetivos, cujo campo de atuação se restringe ao âmbito privado, devendo as religiões, portanto, limitar-se à regência da vida particular de seus fiéis. Assim, o ateísmo, por tratar de crenças pessoais, também é um assunto subjetivo e privado.

Escolhas subjetivas e privadas não deveriam reger os interesses do Estado, o qual, idealmente, é um consenso entre as mais diversas forças a fim de que todos ganhem e percam na mesma medida. Por isso, o Estado se pressupõe laico: tratando da esfera objetiva, palpável e pública da sociedade, cujo guia deveria ser a ciência, ele procura não se imiscuir nas opções particulares dos cidadãos ou grupos, a menos que elas estejam causando danos ao coletivo. E se o ateísmo também é uma opção privada, o Estado não poderia ser nem mesmo ateu.

O erro dos regimes ateus (que nem sempre o eram no papel) do chamado “socialismo real” foi justamente permitir que o Estado violasse a consciência particular das pessoas. É claro que a luta antirreligiosa fazia parte do desmantelamento dos antigos regimes reacionários, mas era ilusória a possibilidade de se aniquilar costumes e instituições seculares por decreto.

Também se enganam aqueles que opõem uma “laicidade” democrática e saudável a um “laicismo” destruidor e intolerante. Semanticamente, o laicismo não é nada mais do que a doutrina que professa a laicidade das esferas públicas, ou seja, uma teoria que prega uma prática, um desejo ideal que prega uma condição real.

Ainda não sei se esses esclarecimentos conceituais podem ajudar a mostrar aos dois lados que, objetivamente, um Estado laico, neutro, não é nem pode ser um Estado ateu, parcial. Mas eu já ficaria satisfeito se todos se conscientizassem de que as verdadeiras vitórias não são obtidas pela coerção legal ou bélica, mas pela persuasão da justeza e da atualidade das próprias ideias.


Bragança Paulista, 11 de abril de 2012.



domingo, 11 de novembro de 2018

O movimento estudantil e sua realidade


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NOTA: É incrível como vários textos reflexivos meus, mesmo que não destinados à publicação imediata, já levantavam há cinco ou seis anos questões até hoje atuais. É ainda mais incrível como minhas opiniões pouco mudaram (ou, nesse ínterim, “voltaram” a seu original), como os desafios no Brasil ainda estão por se resolver e, pior, como a maior parte de tudo se desenvolveu ao contrário do que eu desejava. Este texto foi um dos primeiros que postei no blog Materialismo.net, quando o lancei em janeiro de 2012, e tinha o título “Um movimento estudantil fora da realidade política e científica”, expondo minha insatisfação com a intransigência e falta de criatividade em mais uma das incontáveis “greves estudantis” da Unicamp. Porém, nos meus arquivos o nome estava suavizado como “O movimento estudantil e a realidade política e científica”, constando o dia 27 de janeiro de 2012 como o da última alteração. Devo ter feito mudanças na época, mas ainda mantém um tom crítico para com a juventude, e mesmo hoje se aplica a estudantes cada vez mais mimados e dopados com as visões românticas sobre lutas e revoluções passadas. Pareço preconceituoso, mas isso resume o que até alguns militantes criticam como a esquerda lacração.



É raro um não militante, ainda mais se apartidário e pouco acostumado a reflexões ideológicas, opinar sobre o movimento estudantil (ME). Mas se ele tem alguma preocupação social e julga que pode transformar o mundo desenvolvendo seus talentos em prol do maior número de pessoas, a tomada de posição é inevitável.

Muitos acusam o ME universitário de ser “antidemocrático” e “fechado”, mas percebi que até os grupos considerados mais “radicais” estão sempre abertos a conversar, mesmo com os discordantes. Antes de tudo, atrás de “direitistas” e “esquerdistas”, vejo seres humanos com necessidades e sentimentos comuns aos nossos. Talvez o problema não resida nas pessoas, mas numa crise estrutural do modelo de ME, que se choca com as aspirações reais dos estudantes.

Esse modelo parece ter surgido das lutas sociais dos anos 1960 aos 1980, desde a oposição à ditadura até a redemocratização e o descontento com a hiperinflação. Ao longo dos anos 1990, houve motivos para mantê-lo diante da evidente privatização do público no Brasil, mas em 2002 a esquerda (ou uma das várias) finalmente chegou ao poder, e os movimentos sociais, como fruto da astúcia de Lula ou de quem pensava com ou por ele, foram cooptados e se burocratizaram. O fluido e o dinâmico se ossificaram, e no ME “partidarizado”, assim como nos sindicatos, muitos contestadores se acomodaram.

O governo do PT trouxe certo crescimento econômico e diminuição da pobreza, o que se refletiu, em muitas camadas da população, em menos mobilização política e mais preocupação com questões intelectuais e de valor. Aparentemente, o ME não se adaptou: hoje, a maioria dos jovens não tem do que reclamar, por isso, certamente as eleições discentes têm despertado pouca atração. De fato, o ME ainda carrega as bandeiras mais progressistas, o que é ótimo, mas a “estudantocracia” ficou muito presa a propostas com as quais muitos não se identificam. Hoje os estudantes – mesmo os de baixa renda, em algum grau – vivem com certo conforto, sem a extrema necessidade de manifestação social.

Quem quer atualmente contestar o capitalismo, depor reitores, fazer piquetes ou ocupações? Na verdade, quer-se garantir estágios, empregos, diplomas ou uma pós, em resumo, quer-se “ordem e progresso”: ordem acadêmica para regularizar documentos, e progresso financeiro. E por que não, também, progresso intelectual? Isso implica botar mais técnica na política, e se muitos estudantes, digamos, “só querem estudar”, isso não se reflete nas propostas das chapas. Colaborar no progresso científico também é fazer política, mas o ME separou as duas coisas, criando políticos não científicos e cientistas não politizados. Claro, o conhecimento deve sair da academia para a comunidade, mas não se pode marginalizar a necessidade real de inserção acadêmica e de progresso intelectual dentro da própria universidade e de nós mesmos. A ciência não deve se “despolitizar”, mas o ME deve atentar mais às necessidades reais do contexto atual.

No Brasil, por um lado, a produção científica avançada não serve às pessoas pobres, mas apenas ao lucro privado, e por outro, os acadêmicos e movimentos mais progressistas e socialmente comprometidos às vezes marginalizam a prática científica quando se trata de questões políticas, guiando-se pelo dogmatismo ideológico e pelo praticismo grosseiro de algumas correntes. Nos dois casos, o conhecimento continua encastelado nas universidades, resultando em ensino básico conteudista, privilégio da memorização na seleção dos futuros universitários e manutenção da maioria da população na ignorância, no preconceito e na superstição.

Penso que é necessário alterar paradigmas ocidentais consolidados e fundir ciência, política e “povo” num só organismo. Não se distinguiria o momento de fazer ciência ou política: o trabalho técnico-intelectual seria um meio de transformação, e as necessidades sociais, e não os interesses privados, condicionariam a produção científica. Em outras palavras, o cientista seria um político e o político seria um cientista, mas todos seriam ambos ao mesmo tempo, sem separação entre academia, Estado e população. Isso só viria com a universalização do ensino, sua total administração pela sociedade, sua reforma completa e a integração de todos os níveis, visando não a “aprovação no vestibular”, mas o equilíbrio psicológico do estudante, sua inserção e na sociedade e o desenvolvimento da criatividade para produzir novos conhecimentos. Poderia haver tanto dinheiro estatal quanto particular na empreitada, mas com respeito aos interesses da comunidade, e não dos financiadores.

É um projeto utópico, talvez, mas que poderia ser uma meta ideal da marcha para a transformação estrutural da sociedade brasileira. Apenas espero que toda a comunidade acadêmica possa crescer junto e enxergar, como eu disse, pessoas com suas falhas humanas, por trás desta ou daquela opinião política ou roupagem burocrática.