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sexta-feira, 15 de março de 2024

MEU PRIMEIRO LIVRO TRADUZIDO!


Link curto pra esta publicação: fishuk.cc/rur-aleph

Nas próximas semanas, assim como você já viu nesta que passou, não vou poder mais postar com tanta frequência, mas tô aproveitando um tempinho pra anunciar esta grande notícia: finalmente já está na pré-venda a tradução direta do checo da famosa peça R.U.R. – Os Robôs Universais de Rossum, do dramaturgo Karel Čapek, que fiz no segundo semestre de 2018, mas que devido aos azares da pandemia, só vai poder sair em abril! Provavelmente a primeira tradução feita diretamente da língua eslava, sem ser por intermédio do inglês nem uma adaptação do texto original, como se fez no passado. Recebi hoje meu exemplar de cortesia e está ótimo, é um grande orgulho ver minha primeira tradução completa publicada com este nom de plume que você conhece. Não é apenas parcialmente, de alguns textos, como foi o caso dos Manifestos Vermelhos organizados por Daniel Aarão Reis, com quem também tive a honra de contar como membro de minha banca de doutorado no último dia 30 de janeiro.

Em meados de 2016, minha ideia foi começar a estudar checo pra traduzir coisas relativas à Primavera de Praga, em 1968, que completaria 50 anos em 2018. Porém, em meados de 2017, devido ao início do doutorado e de outras ocupações, tive de largar, mas na primeira metade de 2018, foi oferecido um serviço de tradução do checo numa lista de e-mails pra tradutores, sem mais detalhes. Como eu tinha algum conhecimento, fui atrás e a Editora Aleph me apresentou o trabalho. Até pesquisei pra saber mais do autor e da obra, na qual pela primeira vez apareceu a palavra “robô”, embora se diga que ela foi uma sugestão do irmão de Karel, rs. E enquanto traduzia (que é uma atividade em grande parte mecânica), paralelamente voltei a estudar mais a gramática, o ritmo foi acelerando à medida que eu progredia, e voilà!

Recomendo mesmo que comprem esta raridade, pra prestigiar o grande trabalho da editora, que ainda por cima, não sei por que colocou na capa este menininho que é praticamente minha cara quando eu era criança, rs. Mas sugiro que vejam o trabalho completo de capa no site e no Instagram da Aleph, pois ele traz uma pequena surpresinha, embora só exista na versão brochura, e não de capa dura:


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Co jsem měl dnes k obědu; Její láska

Este programa especial de fim de ano na antiga Checoslováquia comunista, o Gramohit, apresentava as músicas que faziam mais sucesso a cada ano. A edição de 1967, por exemplo, é uma fábrica infinita de memes, como talvez a de outros anos. Além das animadas e bonitas músicas de Pavel Novák, não pude deixar de traduzir e legendar uma canção cômica executada por Jiří Šlitr (1924-1969), um de seus compositores junto com Jiří Suchý (n. 1931). Ela se chama Co jsem měl dnes k obědu (O que comi hoje no almoço), e embora o tema seja bem banal, a graça está na letra estrambólica e na ausência de pausas entre os rápidos versos. A música mesma foi lançada em 1965.

Šlitr e Suchý, às vezes conhecidos como “os Jiří”, realizaram grandes parcerias que influíram fortemente no teatro e música populares checos da década de 1960. Apareceram juntos nos filmes Bylo nás deset (Éramos dez, 1963) e Kdyby 1000 klarinetů (Se 1000 clarinetes, 1964), e em 1968 Šlitr reencenou sua peça Ďábel z Vinohrad (O diabo de Vinohrady, 1966) como resposta ao esmagamento da Primavera de Praga. Juntos “os Jiří” também assinaram naquele ano o Manifesto das Duas Mil Palavras, anticomunista, redigido por Ludvík Vaculík.

Embora não fatigante, traduzir essa canção me exigiu baita pesquisa! São citados vários nomes e comidas e pratos: alguns só existem na Chéquia e na Eslováquia ou nos países ao redor; outros até existem no Brasil ou têm nome em português, mas são bem raros no consumo diário. Alguns pratos checos, com pouca variação, também são consumidos na Alemanha e entre nossa imigração alemã: por isso usei os nomes alemães, mas com o plural em “s”, e não original, pra simplificar. Outros eu apenas adaptei pra coisas mais conhecidas, por isso a letra parece não fazer sentido, até porque a intenção foi mais zoar mesmo, e não passar coerência lógica. Em muitos pontos foi preciso adaptar, mas acredito que o espírito de diversão foi passado!

O pessoal é capaz de fazer piada com o comunismo, dizendo que lá devia haver “fome”, embora a Checoslováquia fosse relativamente rica, e por isso os Jiří faziam uma apologia à comida... Engraçado é que Šlitr consegue segurar o ar durante o canto, mas a prisão favorece depois esse “efeito especial" no fim! Eu mesmo traduzi e legendei direto do checo, copiando este texto que precisou de umas correções. Eu cortei essa versão do programa Gramohit, mas há também esta gravação mais longa feita ao vivo no Teatro Semafor.

A segunda canção é Její láska (O amor dela), uma tradução do schlager alemão gravado em 1965 por Drafi Deutscher, Marmor, Stein und Eisen bricht, e lançada pelo cantor Jaromír Mayer em 6 de janeiro de 1967. A letra original foi escrita por Günter Loose, a melodia composta por Christian Bruhn, e a versão checa criada por Ivo Fischer, letrista nacional muito célebre. Mayer nasceu em Praga em 1943, ainda sob o domínio nazista, e em 1986 emigrou pra Alemanha Ocidental, e depois pro Canadá. Devido a problemas vocais, há muitos anos já não canta, mas tinha uma banda no Canadá, na qual tocava ocasionalmente. Marmor, Stein... chegou a estar no topo das paradas da antiga Alemanha Ocidental, e até mesmo nos EUA recebeu uma versão em inglês, Marble Breaks and Iron Bends.

O primeiro vídeo é do mesmo Gramohit em 1967, no qual ele parece um clone do deputado estadual paulista Frederico D’Ávila. Eu mesmo traduzi direto do checo utilizando esta página como fonte, e também legendei e cortei o quadro, repetindo a própria canção.

No segundo vídeo, legendei a canção inteira, incluindo as estrofes que eu já tinha traduzido no outro vídeo, mas ficaram fora das legendas. E eu mesmo também procurei as fotos na internet e fiz a montagem.


Imaginem, imaginem
O que comi hoje no almoço,
Imaginem, imaginem
O que comi hoje no almoço:

Knödels com couve,
Com uma couve azeda.
Aí comi junto à mesa
Gelatina de sei lá o quê.
Comi repolho cozido
Junto com Mariazinha.
Eu mesmo fiz no forno
Uma carne de cordeiro.
Devorei como um louco
Mohnnudels gordinhas.
Eu comprei em Londres
Um esturjão com alcaravia
Que defumado na ervilha
Eu atirei pro meu irmão,
Engoli na base da água
Pãozinhos com zabaglione,
Achei na minha cueca
Mirtilos com toucinho,
Uma torta, panquequinhas,
Batatas, pratos com porco
[Lit. “Batatas, porcarias”],
O que é muito, isso é muito,
Queijo de Olomouc,
Pão com queijo Romadur
Da Madame de Pompadour,
Estou abrindo agora mesmo
Uma conserva de espinafre,
Os pastores abocanharam
Carne de porco cozida,
Iogurte zincica de Levoca
Célebre no sul da Boêmia,
Uma boa senhorinha deu
Copos de chá de endro,
Me afoguei no uísque
Com lábios de coelho,
Me trouxeram de Fleky
Rabo de marta no bacon,
Frango frito, mas
Já sem Mariazinha.

Vocês estão vendo,
Vocês estão vendo,
Hoje comi isso no almoço.

____________________


Představte si, představte si,
Co jsem měl dnes k obědu,
Představte si, představte si,
Co jsem měl dnes k obědu:

Knedlíky se zelím,
Se zelím kyselým.
Pak jsem jed u stolu
Kdo ví co v rosolu.
Kapustu vařenou
Jedli jsme jí s Mařenou.
Sám jsem si za pecí
Zadělal telecí.
Škubánky maštěný
Baštil jsem jak praštěný.
Uzený na hráchu,
Střílel jsem ho na bráchu,
Jeseter na kmíně,
Koupil jsem ho v Londýně,
Buchtičky se šodó,
Zapíjel jsem je vodó,
Borůvky na sádle,
Našel jsem je ve prádle,
Pirožku, blinčiky,
Portofěly, svinčičky,
Co je moc, to je moc,
Syrečky from Olomóc,
Na chlebě romadur
Od madam de Pompadur,
Špenátovou konzervu,
Teďka všechno rozervu,
Vařené bravčové,
Sežrali ho bačové,
Žinčica z Levoče,
Zná ji každý Jihočech,
Koprovou vode dna
Dala tetka hodná,
Zaječí pysky
Zapíjel jsem whisky,
Kuní ocas na špeku,
Přinesli mě od Fleků,
Kuřata smažený,
Ale už bez Mařeny.

To koukáte, to koukáte,
To jsem měl dnes k obědu.





Adendo (19/5/2024): Achei esta apresentação de Jaromír Mayer muito por acaso, dublando no fim de março de 2024 Její láska em playback no programa eslovaco Hudba bez hraníc (Música sem fronteiras), que também traz justamente muitos antigos astros checos, relembrando quando a Checoslováquia era um só país. Embora, como podemos ver bem no fim do vídeo, sua voz esteja muito longe daquela dos áureos tempos, ele também aparece em outros vídeos do canal recordando outros sucessos e até dando uma pequena entrevista. Recomendo uma visita, pra ver como está Mayer hoje:

1. No mínimo por um ano e meio,
Dam-dam, dam-dam,
Fui com um buquê ver Marlene,
Dam-dam, dam-dam.

Refrão:
O amor dela está enferrujando,
Sei lá com quem ela anda saindo,
Não gosto, não gosto mais dela,
Não há por que insistir.

2. Aí eu quis comprar pra loira Cris,
Dam-dam, dam-dam,
Um par de aliancinhas douradas,
Dam-dam, dam-dam.

(Refrão 2x)

3. Quem tenho agora fora Paulinha,
Dam-dam, dam-dam,
Gozo a vida com ela sem veneno,
Dam-dam, dam-dam.

4. O amor dela ignora limites,
Cheira melhor que sabugueiro,
Mal sabe, mal sabe mentir
E eu gosto dela.

O amor dela ignora limites,
Cheira tal sabugueiro em maio,
Mal sabe, sequer sabe mentir
E eu gosto dela.

____________________


1. Celý rok a půl nejméně,
Dam dam, dam-dam
Chodil jsem s kytkou k Marléně
Dam-dam, dam-dam.

Refrén:
Její láska chytá rez,
Kdoví, s kým pak se toulá dnes,
Už jí nemám, nemám rád,
Není o co stát.

2. Pak jsem chtěl pro blond Kristýnku,
Dam-dam, dam-dam,
Koupit pár zlatých prstýnků,
Dam-dam, dam-dam.

(Refrén 2x)

3. Co mám teď ale Pavlínu,
Dam-dam, dam-dam,
Chutnám s ní život bez blínu,
Dam-dam, dam-dam.

4. Její láska nezná mez,
Voní líp než to umí bez,
Stěží, stěží umí lhát,
A já jí mám rád.

Její láska nezná mez,
Voní líp než májový bez,
Stěží, jenom stěží umí lhát,
A já jí mám rád.




terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Karel Gott: “Léta prázdnin” e “V máji”

Hoje estou postando ao mesmo tempo duas canções gravadas pelo grande astro checo Karel Gott, que foram traduzidas do francês e do italiano a esse idiomas eslavo. A primeira, gravada em 1975, mesma data do show, chama-se Léta prázdnin (Anos de férias), e é a tradução da faixa Le moribond (O moribundo), composta e lançada pelo belga Jacques Brel e cuja letra tem um sentido quase todo diferente. O letrista checo Zdeněk Borovec (como na maioria das músicas de Gott) manteve a estrutura textual e trocou a despedida do cara que ia morrer pela partida de um jovem que estava se casando, acrescendo ainda o pai e o irmão (brácha tem sentido coloquial, como “mano”). A batida e a letra foram mais inspiradas na versão em inglês Seasons In The Sun, na voz de Terry Jacks, mas mesmo aí há referência à morte. Será que no comunismo todo mundo devia ser alegre, e as referências melancólicas eram desencorajadas?

Eu mesmo traduzi direto do checo a letra e legendei o vídeo que se encontra neste ótimo canal com canções checas e checoslovacas. Trata-se do festival Bratislavská lýra 1975, contando com a orquestra de Ladislav Štaidl e o coro de Jarmila Gerlová, Vlasta Kahovcová e Jitka Zelenková. Ouça também a versão estúdio, álbum Karel Gott ’76.

A segunda música é uma tradução de Il mondo, imortalizada na voz do Jimmy Fontana e cuja melodia foi composta por ele, Lilli Greco e Carlo Pes. Karel Gott gravou uma tradução em checo ainda em 1966, no comecinho da carreira, com o arranjo métrico um pouco alterado, o nome V máji (Em maio) e texto de Jiří Štaidl. As imagens do primeiro vídeo são do programa de TV Přehlídkový koncert, em 1966, no qual tocam o conjunto de Lubomír Pánek e o TOČR dirigido por Josef Vobruba. Há também o clipe oficial da Supraphon, com a qual Gott quase sempre gravou. As imagens do segundo são de um show que Gott gravou em 1985, no ápice de sua carreira, demonstrando já as muitas influências internacionais que absorveu nos anos 70 e 80 (esse é o vídeo completo, e V máji começa mais ou menos aos 46 minutos.

Il mondo foi lançada em 1965 num compacto de Enrico Sbriccoli (1934-2013), que adotou Jimmy Fontana como pseudônimo. Ele a cantou no antigo festival Un disco per l’estate em 1965, e mesmo tendo ficado em quinto lugar, muito de longe foi a que mais obteria sucesso no futuro. Tendo se incorporado à cultura popular italiana, foi posteriormente traduzida pra muitas línguas (nas quais também ficava no topo das paradas) e regravada por vários outros conterrâneos, de modo a tornar-se a marca registrada de Fontana. Ele pode ser considerado o famoso “artista de um hit só”, se não contarmos sua composição Che sarà, que também estourou.

Às vezes é estranho traduzir músicas checas pro português, porque a estrutura simbólica e de pensamento deles é muito diferente. Atesta-o o fato de ser aceita numa canção de tal envergadura a descrição de um homem “plantando bananeira” ou “andando de cabeça pra baixo” (literalmente, “caminhando com as mãos”), o que de fato devia ser comum em jardins quentes entre jovens magrelos de países comunistas. Além disso, colegas locais de estilo, como Pavel Novák, apareciam constantemente fazendo ginástica em clipes. Eu mesmo também traduzi a letra de V máji, legendei e cortei o quadro do vídeo original, tendo encontrado a letra no Google Play Music.

Karel Gott (1939-2019) nasceu durante a ocupação nazista e foi grande sucesso também nos países de língua alemã, na qual ele também cantava (Gott significa “Deus” em alemão). Ele também era pintor amador, e sua formação foi como eletricista, mas ficou célebre por meio da música, começando a carreira de cantor profissional em 1960. O deslanche de sua trajetória foi na década de 1970, tendo gravado muitos álbuns e inclusive sendo lançado na URSS em 1977, em cujos futuros países ele também seria admirado. Gott encerrou a carreira em 1990, mas retornou em 1993, embora naquela década se focasse mais na pintura e nas exposições que realizou. Faleceu em 1.º de outubro de 2019, vítima de leucemia, mas seu site oficial em checo persiste. Apesar do controle comunista, a antiga Checoslováquia desenvolveu uma rica cultura fonográfica e traduziu muito rock e pop então estourando no Ocidente. A mesma excelência em se tratando de música popular, superando inclusive a extinta URSS, se deu com a Polônia, outro país onde o comunismo nunca se enraizou, e a antiga Iugoslávia, de modelo social bastante divergente.


1. Dê adeus, mano, aos anos da infância,
Você era melhor em contas, eu em leitura,
Há muito a neve cobriu tudo isso,
Você bebia das minhas mãos, eu das suas,
Uma só nascente, uma só risada.

Então adeus, mano, tenho que ir,
Pois nossa pequenez só dura um instante,
E aí já acabam os anos de brincadeiras,
Acabam para todos, e isso é justo,
Então entenda isso, aceite isso.

Refrão:
O mundo era legal, o mundo era nosso,
Anos de férias, sol e praia,
A risada das salas de aula está longe,
Agora já preciso ser de alguém.

2. Adeus, papai, você se esforçou
Pra que meu sono fosse despreocupado
E muitas vezes brigava comigo,
Enquanto eu ficava mais na gandaia,
Só indo ver os pais ao ter problemas.

Então adeus, papai, tenho que ir,
Pois nossa pequenez só dura um instante,
E aí já está longe a infância,
Já tenho eu mesmo que cuidar de mim,
Vou aonde a necessidade me levar.

(Refrão 2x)

3. Adeus, minha querida, se cuide,
Você foi a garota de quem mais gostei
E agora partindo como um jogador,
Vou lhe provocar este choro,
E você ao menos vê pra que sirvo.

Então adeus, querida, tenho que ir,
Pois nossa pequenez só dura um instante,
E amadurecer é faca de dois gumes,
Não fique triste, seja mais falante,
Pois rapazes desinibidos são a maioria.

(Refrão 2x)

____________________


1. Buď sbohem brácho z dětských let,
Byl’s lepší v počtech a já zas lépe čeť,
To všechno dávno pokryl sníh,
Pil jsem z dlaní tvých, ty z mých,
Jeden pramen, jeden smích.

Tak sbohem brácho, musím jít,
Vždyť malí můžeme jen chvíli být
A pak už končí léta her,
Končí všem a to je fér,
Tak to chápej, tak to ber.

Refrén:
Svět byl fajn, svět byl náš,
Léta prázdnin, slunce, pláž,
Pryč je smích školních tříd,
Teď už musím něčím být.

2. Buď sbohem táto, ty ses dřel,
Abych já bezstarostný spánek měl
A byl to se mnou leckdy kříž,
Já jsem do větru byl spíš,
Rodičům jen na obtíž.

Tak sbohem táto, musím jít,
Vždyť malí můžeme jen chvíli být
A pak už dětství je to tam,
Už se musím starat sám,
Kudy v nouzi, kudy kam.

(Refrén 2x)

3. Buď sbohem lásko, tak se měj,
Měl jsem tě ze všech děvčat nejraděj
A teď odcházím jak hráč,
Nechám tě tu ronit pláč,
No aspoň vidíš, co jsem zač.

Tak sbohem lásko, musím jít,
Vždyť malí můžeme jen chvíli být
A zrání má svůj rub i líc,
Nebuď smutná, dej si říct,
Vždyť kluků k světu, těch je víc.

(Refrén 2x)




Estou ansioso, estou ansioso
Já estou sentindo no ar
Umidade e degelo da primavera
E então me levanto
Porque estou ansioso
Porque hoje ao amanhecer
A primavera chegou até nós

Somente em maio
O amor nasce em mim
Em maio
Plantando bananeira
Eu caminho em maio
Plantando bananeira
Eu caminho atrás de você

Somente em maio
Minha canção protege a amada
Mas a Lua crescente no céu
A corta, só por um mês
Vou ser seu
Somente em maio...

____________________


Nemám stání, nemám stání
Ve vzduchu už cítím
Jarní vláhu, jarní tání
A tak vstávám
Neboť nemám stání
Neboť dneska za svítání
Jaro přišlo k nám

Jen v máji
Se láska ve mně rodí
V máji
Já po rukou
Si chodím v máji
Já po rukou si
Chodím za tebou

Jen v máji
Má píseň moji lásku hájí
Však srpek na nebi
Ji krájí, měsíc jen
Budu tvůj
Jen v máji...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Melhores canções de Pavel Novák (1)


Link curto pra esta postagem: fishuk.cc/pavelnovak1


Após o fim do meu canal Pan-Eslavo Brasil no YouTube, finalmente estou republicando minhas traduções de músicas do famoso cantor checo Pavel Novák, que é muito pouco conhecido no Brasil, assim como Karel Gott, que já apareceu várias vezes aqui. Novák nasceu em 1944 e morreu em 2009, com câncer de próstata, tendo sido o difusor do rock na antiga Checoslováquia comunista. Coincidentemente, os dois nasceram quando a República Checa era o Protetorado Checo e Morávio, controlado pelos nazistas e separado da Eslováquia até o fim da 2.ª Guerra Mundial. Apesar do controle comunista, a antiga Checoslováquia desenvolveu uma rica cultura fonográfica e traduziu muito rock e pop então estourando no Ocidente. A mesma excelência em se tratando de música popular, superando inclusive a extinta URSS, se deu com a Polônia, outro país onde o comunismo nunca se enraizou, e a ex-Iugoslávia, de modelo social bastante divergente.

A primeira canção foi gravada em 1970 com o título Asi (Talvez), e é a tradução do grande sucesso Bad Moon Rising, lançado pela banda Creedence Clearwater Revival no ano anterior (o antigo conjunto da Califórnia pode ser visto também numa filmagem ao vivo). O engraçado é que, mantendo a batida desse rock mais country, Pavel Novák traduziu apenas a sonoridade da letra de John Fogerty, perdendo-se o sentido original de apocalipse noturno, mas o resultado foi exatamente um texto campestre!

Eu mesmo traduzi a letra checa diretamente, o que foi um trabalho meio difícil, pois havia muitas expressões coloquiais, incluindo estrangeirismos. O primeiro vídeo se encontra neste ótimo canal com canções checas e checoslovacas, e o segundo vídeo está neste canal, desta vez com uma versão ao vivo que deve datar da década de 1990. Novak até tenta imitar as dancinhas do clipe original de 1970, mas a essa altura já é impossível dar aquela pirueta... Seu filho, Pavel Novák Jr., também seguiu carreira na música e pode inclusive ser visto em primeiro plano, de blusa bege, quando dão um close nos back vocals.

A segunda canção foi gravada em 1967 com o título Malinká (Minha pequena, no caso a namorada), e é a tradução de uma canção hoje aparentemente pouco conhecida. Ela se chama Little Girl e foi gravada por Casey Jones & The Governors no ano anterior. O autor original foi Casey Jones, pseudônimo de Brian Casser, e a versão checa é de Eduard Krečmar, cujo lançamento é descrito em checo pela gravadora Supraphon. Malinká foi um dos maiores sucessos da carreira de Pavel Novák, mas como várias de suas versões do Ocidente, traduziu-se apenas a sonoridade da letra, perdendo-se o sentido original de um casal que estava em crise e iria se separar pela descrição de um rapaz que esperava sua namorada, “minha pequenina”, visitá-lo em casa à noite. Novák gravou ainda muitas traduções dos Beatles e outros rocks da época, como a faixa Ton vět mi lál, versão de Don’t Let Me Down!

Eu mesmo traduzi do checo e legendei o primeiro vídeo com o clipe original televisivo de 1967, que encurta, porém, o solo instrumental. Também legendei o segundo vídeo, que está no mesmo canal citado de música checa: Novák se apresentou com um playback na TV em 1994 e não tinha mais a “forma” de antigamente. É muito legal essa dancinha nostálgica que lembra o Silvio Santos ou o Gugu, além da voz e estilo musical, próximos da nossa “jovem guarda”, sobretudo Wanderley Cardoso!

A terceira canção que traduzi direto do checo é Pihovatá dívka (Garota sardenta/com sardas), de 1967, desta vez uma composição própria de Novák, e não a tradução de algum hit ocidental. O primeiro vídeo é tal como foi apresentado pro especial televisivo Gramohit, que mostrava os maiores sucessos de cada ano na antiga Checoslováquia comunista (edição completa). A tosquice da cenografia, dos visuais e das próprias letras faz jus à cultura comunista da Europa Central e Oriental pré-1989, não sendo diferente, por exemplo, do que era exibido na antiga Alemanha Oriental. A beleza fica por conta do ritmo, inspirado nos rocks da época que atraíam jovens do mundo todo, semelhante à “jovem guarda” brasileira da década de 1960. Ou da coreografia e vestes de Pavel Novák, misto de Silvio Santos com Eduard “Trololo” Khil...

O segundo vídeo é o clipe propriamente dito: pelo que se vê, ele está apaixonado por uma loirinha/ruivinha de sardas, com ar intelectual ou nerd, talvez até meio bobinha, e ela não parece lhe dar a mínima. A produção apresenta os mais inusitados elementos, como Novák quase caindo numa piscina vazia, a protagonista que parece a Chiquinha do seriado Chaves e os dois lutadores de espadas que aparecem do nada. Um “humor” bem típico da Europa comunista, que também fica por conta das dancinhas saltitantes de Novák e sua parceira, hahaha.




Talvez eu alugue um par de cavalos,
Talvez também uma carroça bacana,
Talvez eu risque uma linha pelo mapa,
Opa, talvez haja um amanhã pra mim.

E eu, vou pôr nas rodas
Dois enfeitinhos coloridos,
Vou decorar aqueles cavalos.

Pode ser que as pessoas morram de raiva,
Pode ser que elas fiquem censurando,
Talvez eu então só tenha sucesso
E aí talvez insista na minha escolha.

Eu vou pôr nas rodas
Dois enfeitinhos coloridos,
Vou decorar aqueles cavalos.

Os idiotas são um problema diário,
Vou os afogar totalmente num rio,
Vejo que não há nada tão terrível,
Logo vou entender todas as coisas.

E eu, vou pôr nas rodas
Dois enfeitinhos coloridos,
Vou decorar aqueles cavalos.

Eu vou pôr nas rodas
Dois enfeitinhos coloridos,
Vou decorar aqueles cavalos.

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Asi pár koní najmu,
Asi i kočár fajnovej,
Asi přes plány škrtnu lajnu,
Asi mi bude zítra hej.

Já, na kola si dám
Dvě fangle zbarvení,
Pár těch koní vystrojím.

Možná lidé zlostí prasknou,
Možná budou důtky plést,
Asi teda slíznu mastnou
Asi však budu svou si vést.

Na kola si dám
Dvě fangle zbarvení,
Pár těch koní vystrojím.

Hloupí jsou trable každodenní,
Se vším je v řece utopím,
Vidím, že nic tak strašný není,
Každou věc záhy pochopím.

Já, na kola si dám
Dvě fangle zbarvení,
Pár těch koní vystrojím.

Na kola si dám
Dvě fangle zbarvení,
Pár těch koní vystrojím.




A campainha vai tocar oito vezes,
Minha pequena vai vir em casa,
Estou sozinho em casa,
Vou pôr a água no café
Assim que ela chamar na porta.

Não posso ficar muito fora,
Pois hoje pouco depois das oito
Minha pequena vai vir em casa,
Minha pequena vai vir em casa.

Sei que de casa minha pequena
Foi aguardar na cabeleireira,
O salão vai fechar às seis
E em duas horas vai vir em casa
Quando escurecer pela cidade.

E graças aos vizinhos
O prédio todo também vai saber
Quem a pequena anda visitando,
Quem a pequena anda visitando.

O frio rasteja na chegada
E também tortura minha pequena,
A pobrezinha tem frio nas pernas
Antes dela chamar na porta.

Quero aquecê-la
E arder como ferro em brasa
Logo que a pequena chegar em casa,
Minha pequena vai vir em casa,
Minha pequena vai vir em casa.

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Zvon osmkrát zaklinká,
K nám přijde má malinká,
Jsem doma sám,
Na kafe vodu dám,
Až nám u dveří zacinká.

Ven málo smí,
Však dnes něco po osmý,
K nám přijde má malinká,
K nám přijde má malinká.

Znám z domu svou maličkou,
Je v přízemí holičkou,
V šest zavře krám
A dvě hodiny půjde k nám
Jak stín podle zdi po špičkách.

Dík sousedům
Však stejně pozná celej dům,
Kam chodí má maličká,
Kam chodí má maličká,

Mráz prolézá uličkou,
Trápí i mou maličkou,
Jí ubohý je zima na nohy,
Než nám u dveří zacinká.

Já chci hřát
A plát jako žhavej drát
A až přijde má malinká,
K nám přijde má malinká,
K nám přijde má malinká.




Tenho um arco-íris pro meu dia,
E de novo estrelas pra minha noite.
De manhã sou encantado,
Todo dia experimento essa força.

Seus olhos são pra mim
Um arco-íris de cores atraentes.
As sardas, o escuro de setembro,
São como estrelas na cabeça.

Toda hora procuro uma rima
Já faz umas dez vezes.
Por que fico bobo e sempre
Sonho com essa garota sardenta?

Por que ela me ignora?
Só devo então sonhar com ela?
Por que ela me ignora?
Só nos sonhos posso tê-la.

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Mám duhu pro svůj den,
Hvězdy zase pro svou noc.
Ráno jsem okouzlen,
Denně poznávám tu moc.

Tvé oči pro mě jsou
Duhou barev lákavou.
Tvé pihy září tmou
Jako hvězdy nad hlavou.

Hledám stále, hledám rým
Už podesáté.
Proč já blázen, pořád sním
O té dívce pihovaté?

Proč si mě nevšímá?
Což musím o ní jen snít?
Proč si mě nevšímá?
Jenom ve snách smím ji mít.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Karel Gott – Tam, kam chodí vítr spát


Link curto para esta postagem: fishuk.cc/tamkam


Estou continuando a coleção lançada no início de 2018, com nosso célebre croata Vice Vukov, após notar que a música brasileira em 2017 tinha se tornado um verdadeiro lixo. E, pelo que constatei, ela piorou ainda mais em 2018, sem perspectiva boa pra 2019, por isso decidi seguir minha missão. Vou redescobrindo pérolas populares e românticas do mundo eslavo, pra que possam inspirar nossos artistas e agradar a todo brasileiro.

Esta é a segunda canção que traduzi diretamente do checo, se não contarmos o próprio hino da República Checa, pro qual, porém, contei também com outras traduções. De novo agora, eu mesmo traduzi do próprio original, sem outros cotejos, usando a prática de aprendizado autodidata desde outubro de 2017 e o conhecimento adquirido após traduzir uma peça teatral completa do checo de outubro a dezembro últimos. O nome da música, surgida ainda na antiga Checoslováquia, é Tam, kam chodí vítr spát (Lá aonde o vento vai dormir), interpretada por Karel Gott, considerado o maior cantor nacional.

Gott (n. 1939), que nasceu durante a ocupação nazista, é considerado o maior cantor masculino de língua checa, mas com grande sucesso também nos países de língua alemã, na qual ele também canta (Gott significa “Deus” na língua alemã). Ele também é pintor amador, e sua formação foi como eletricista, mas ficou célebre por meio da música, começando a carreira de cantor profissional em 1960. O deslanche de sua trajetória foi nos anos 70, tendo gravado muitos álbuns e inclusive sendo lançado na URSS em 1977, em cujos futuros países ele seria também admirado. Gott, que tem um site oficial em checo, encerrou a carreira em 1990, mas retornou em 1993, embora naquela década se focasse mais na pintura e nas exposições que realizou.

Tam, kam chodí vítr spát tem melodia de Ivan Kotrč e letra de Zbyněk Vavřín, e foi gravada pela primeira vez em 1965. Os arranjos ficaram por conta da orquestra de Karel Vlach, e o coral soando ao fundo tem a direção de Lubomír Pánek. O vídeo foi extraído do programa de TV Z levého rukávu, emitido em 1967, e tem um upload oficial da gravadora de Karel Gott no YouTube. Eu copiei a letra original desta página, cujo site também tem muita coisa de Gott, como biografia, fotos, letras de música, pinturas etc. Seguem abaixo minha legendagem, o texto em checo (original) e a tradução em português:


Tam, kam chodí vítr spát,
Tam já cestu znám,
Tam, kam chodí vítr spát,
V údolí svůj domov mám.

Tam, kam chodí vítr spát,
Tam svůj domov mám,
Tam, kam chodí vítr spát,
Tam i já se vracívám.

Měsíční gong po větru volá,
Měsíční gong svá hejna svolává,
Tomu, kdo sám, sám se toulá
Zpáteční lístek po větru posílá.

Tam, kam chodí vítr spát,
Tam já domov mám,
Zpátky každý se vrátí rád
Tam, kam vítr šel spát.

Měsíční gong po větru volá,
Měsíční gong svá hejna svolává,
Tomu, kdo sám, sám se toulá
Zpáteční lístek po větru posílá.

Tam, kam chodí vítr spát,
Tam já domov mám,
Zpátky každý se vrátí rád
Zpátky, kam vítr šel spát

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Lá aonde o vento vai dormir,
Lá eu conheço o caminho,
Lá aonde o vento vai dormir,
No vale, eu tenho meu lar.

Lá aonde o vento vai dormir,
Lá eu tenho meu lar,
Lá aonde o vento vai dormir,
Pra lá também volto às vezes.

O gongo da Lua chama no vento,
O gongo convoca suas revoadas,
Àquele que é um solitário errante
Manda no vento passagem de volta.

Lá aonde o vento vai dormir,
Lá eu tenho um lar,
Todos vão gostar de retornar
Lá aonde o vento foi dormir.

O gongo da Lua chama no vento,
O gongo convoca suas revoadas,
Àquele que é um solitário errante
Manda no vento passagem de volta.

Lá aonde o vento vai dormir,
Lá eu tenho um lar,
Todos vão gostar de retornar,
Voltar aonde o vento foi dormir.


Uma curiosidade: não sei quem foi o tradutor, mas Karel Gott também lançou uma versão em inglês dessa canção, que se tornou Home (Lar/Casa), com a letra bastante alterada. Veja que o estilo tenta imitar bem o Elvis Presley, febre na época. Quem quiser só o áudio, pode ver a versão cedida pelos donos dos direitos autorais. Eu mesmo traduzi de forma não literal, então não reclame dizendo que “tem coisas erradas”, “tá impreciso” e sei lá o quê. Até porque a versão escrita que achei tem mesmo uma redação estranha (o tradutor devia ser checo mesmo), e não entendi totalmente coisas como “ocupei/tomei uma Roma”. Não fiz legendas bilíngues pra deixar livres as imagens, e o texto em inglês também segue abaixo:

Home is where I want to be,
Home’s the place I sight for,
You, my love, are far away,
I’m so sad and all alone.

Home means everything to me,
Home’s the place I cried for,
I miss you more every day
And the happiness we’ve known.

I think of you
And all the luck ones back home,
I dream of you,
Though love I left behind,
And now I know
It’s time that I seesed [seized?] a Rome,
And so today
I’m riding to say
That I’m coming home.

Home, the place I long to see,
Home, the place I died for,
Now my wandering days are through,
I will come stright home to you!



quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Karel Gott – Měl jsem rád a mám (1975)


Endereço curto: fishuk.cc/gostei


Estou continuando a coleção lançada no início de 2018 com nosso célebre croata Vice Vukov, após notar que a música brasileira em 2017 tinha se tornado um verdadeiro lixo. E, pelo que constatei, ela piorou ainda mais em 2018, sem perspectiva boa pra 2019, por isso decidi seguir minha missão. Vou redescobrindo pérolas populares e românticas do mundo eslavo, pra que possam inspirar nossos artistas e agradar a todo brasileiro.

Esta é a primeira canção que traduzi diretamente do checo, se não contarmos o próprio hino da Chéquia, pro qual, porém, contei também com outras traduções. Desta vez eu mesmo traduzi do próprio original, sem cotejar com outras versões, usando minha experiência de estudo autodidata desde outubro de 2017 e o conhecimento adquirido após ter traduzido uma peça teatral completa do checo de outubro a dezembro de 2018. O nome desta música, surgida ainda na extinta Checoslováquia, é Měl jsem rád a mám (Gostei e ainda gosto), na voz de Karel Gott, considerado o maior cantor nacional.

A versão original de 1974, chamada Soleado, era apenas melódica, e foi composta pelos italianos Ciro Dammicco (n. 1947) e Dario Baldan Bembo (n. 1948), baseada em outra composição deles de 1972, Le rose blu, com letra de Alberto Salerno (n. 1949) e Francesco Specchia (n. 1929). A mais recente foi gravada primeiro pelo conjunto italiano Daniel Sentacruz, do qual Dammicco era integrante, mas a “letra” era apenas vocalização das mulheres. Em seguida, a canção se tornou um sucesso internacional, e em 1974 recebeu em alemão a primeira letra, à qual seguiriam as de outras línguas. Em checo, a letra foi escrita por Zdeněk Borovec (1932-2001) e gravada por Karel Gott em 1975.

Gott (n. 1939), que nasceu durante a ocupação nazista, é considerado o maior cantor masculino de língua checa, mas com grande sucesso também nos países de língua alemã, na qual ele também canta (Gott significa “Deus” na língua alemã). Ele também é pintor amador, e sua formação foi como eletricista, mas ficou célebre por meio da música, começando a carreira de cantor profissional em 1960. O deslanche de sua trajetória foi nos anos 70, tendo gravado muitos álbuns e inclusive sendo lançado na URSS em 1977, em cujos futuros países ele seria também admirado. Gott, que tem um site oficial em checo, encerrou a carreira em 1990, mas retornou em 1993, embora naquela década se focasse mais na pintura e nas exposições que realizou.

Eu copiei a letra original desta página, mas tive ainda que fazer umas poucas correções. Nesta página, especializada em resgatar originais que depois foram muitos traduzidos, encontrei algumas informações adicionais sobre a canção. Este outro site também tem muita coisa de Karel Gott, como biografia, fotos, letras de música, pinturas etc. Em 1975, Moacyr Franco também gravou sua própria versão no Brasil.

Seguem abaixo minha legendagem dupla com montagem em checo e em português, o texto original checo e a tradução em português. Vejam o vídeo duas vezes, lendo uma legenda de cada vez:



Há também outro vídeo, que baixei sem legendas e cortei apenas o começo e o término sem música, em que Gott está participando do programa de TV especial Karel Gott opět ve Slaném (Karel Gott novamente em Slaný, 1994), com banda regida por Pavel Větrovec (veja a íntegra). Nesse ano, o antigo país já tinha se desmembrado em Chéquia (capital Praga) e Eslováquia (capital Bratislava). O nome do programa faz referência a uma transmissão regular em que Gott era a estrela principal, de 1973 a 1978, Karel Gott ve Slaném, gravado no teatro da cidade de Slaný:


Na kterou z vás vzpomínám si říct,
Na kterou z vás, netroufám si říct.
Óo, lásky mé, čas mě táhne k vám,
Váš smích i pláč měl jsem rád a mám.

Já fotek tvých plnou měl jsem skříň,
Jak jsem byl stár? Sedmnáct či míň?
Óo, lásko má, kde teď jsou, se ptám,
Jen úsměv tvůj měl jsem rád a mám.

Ty vílo z hor, měňavá jak sníh,
Tvůj vzdech se vpil do polštářů mých,
Óo, lásko má, pak jsem spal v nich sám,
Jen povzdech tvůj měl jsem rád a mám.

Ty krásko zlá, zvyklá pouze brát,
Dík tobě já poznal jsem i pád.
Óo, lásko má, tisíckrát mě zklam,
Vždyť vůni tvou měl jsem rád a mám.

Ty kvítku můj, o němž se mi zdá,
Snad někdy též zklamal jsem tě já.
Óo, lásko má, vinu svou už znám,
Tím víc tvou tvář měl jsem rád a mám.

Na kterou z vás vzpomínám teď víc,
Na kterou z vás, netroufám si říct.
Óo, lásky mé, čas mě táhne k vám,
Váš smích i pláč měl jsem rád a mám.

Óo, lásky mé, čas mě táhne k vám,
Váš smích i pláč měl jsem rád a mám!

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Com qual de vocês me lembro de falar,
Com qual de vocês, eu não ouso falar.
Oh, meus amores, o tempo me puxa a vocês,
Gostei e ainda gosto dos seus risos e choros.

Eu tinha o armário cheio de fotos suas,
Qual era minha idade? Dezessete ou menos?
Oh, meu amor, pergunto onde estão agora,
Mas gostei e ainda gosto do seu sorriso.

Oh, fada dos montes, brilhante como a neve,
Meus travesseiros absorveram seu suspiro,
Oh, meu amor, depois dormi neles sozinho,
Mas gostei e ainda gosto da sua respiração.

Oh, beldade má, habituada a ter tudo,
Agradeço a você até mesmo pela queda.
Oh, meu amor, me desaponte mil vezes,
Mas gostei e ainda gosto do seu cheiro.

Oh, florzinha minha, que vejo em sonho,
Talvez um dia também desapontei você.
Oh, meu amor, já sabendo de sua culpa,
Tanto mais gostei e ainda gosto da sua face.

De qual de vocês mais me lembro agora,
De qual de vocês, eu não ouso falar.
Oh, meus amores, o tempo me puxa a vocês,
Gostei e ainda gosto dos seus risos e choros.

Oh, meus amores, o tempo me puxa a vocês,
Gostei e ainda gosto dos seus risos e choros.



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Hino Nacional da República Checa


Endereço curto: fishuk.cc/tcheca


Adendo (2025): Em 2023, como manda a gramática normativa, adotei a prática de usar “ch” no lugar de “tch” em topônimos estrangeiros aclimatados: Chechênia, Chéquia/checo, chuvache, Chade... Porém, assim como ocorreu na transição de “bielorrusso” pra “belarusso”, não mudei as URLs personalizadas, pois sua circulação deve ser grande e as mudanças dificultariam o acesso em compartilhamentos mais antigos.

Este é o atual hino da República Checa, uma canção conhecida pelo nome Kde domov můj (Onde é meu lar), que também é seu primeiro verso. Ela foi composta em 1834 por František Škroup (melodia) e Josef Kajetán Tyl (letra), e inicialmente era parte da trilha sonora da comédia teatral Fidlovačka aneb Žádný hněv a žádná rvačka (Fidlovačka, ou Sem Raiva e Sem Briga), escrita por Tyl e que estreou em Praga em 21 de dezembro do mesmo ano. Mas o tema ficou tão popular entre os checos que eles a adotaram como um hino nacional informal para ressaltar sua identidade dentro do Império Austro-Húngaro.

Originalmente a canção tinha duas estrofes, mas em 1918, quando a Checoslováquia foi criada após o desmembramento do referido império, apenas a primeira estrofe, com poucas modificações, foi incorporada ao hino do novo país, junto com a primeira estrofe da canção eslovaca Nad Tatrou sa blýska (Sobre os Tatras luzem). Isto é, o hino do país era escrito em duas línguas, e havia ainda traduções em alemão e húngaro, usadas até 1938 (desmembramento territorial por Hitler), pra contemplar as minorias étnicas da nação. Leia e assista a esse hino misto nesta página.

O hino checoslovaco passou ileso pela 2.ª Guerra Mundial, pelo regime comunista e pela derrubada da “cortina de ferro”. Mas em 1993, com a divisão do país em República checa e Eslováquia, cada parte do antigo hino passou a ser o hino de cada país, e o hino eslovaco incorporou também uma segunda estrofe esquecida de sua canção nacional. Após a independência do novo país, não houve novas modificações na letra, que pode ser lida e ouvida no vídeo abaixo, com a legenda em checo e a tradução em português.

Tenho algum conhecimento de checo, por ter estudado sozinho por um tempo muito breve, mas ele compartilha amplo vocabulário com o russo, língua que conheço bem, e com o ucraniano, que sei razoavelmente. Além disso, também me apoiei em traduções das Wikipédias em outras línguas, no Google Tradutor e no Wiktionary. Eu tirei o áudio do vídeo que está neste endereço, e mais adiante, há ainda o original e a tradução escritos.

Adendo (1/11/2025): Estou adicionando hoje um vídeo com o trecho de uma adaptação da peça de Tyl pro cinema, lançada em 1930 e considerada o primeiro filme checoslovaco. Ao pesquisar a imagem do cantor idoso usando o Gemini, ele respondeu que o ator estaria representando o próprio Tyl (não consegui confirmar por outras fontes, nem mesmo checas) e que “Fidlovačka” era o nome de uma tradicional festa de primavera dos sapateiros de Praga. A vantagem deste trecho é que ele traz a segunda estrofe (não incorporada ao hino nacional, portanto, em itálico) de Kde domov můj, que resolvi trazer traduzida hoje. Há diferentes versões escritas da letra, mas eu trouxe a que está na Wikipédia checa e que difere do áudio só no trecho entre colchetes.




Kde domov můj, kde domov můj?
Voda hučí po lučinách,
bory šumí po skalinách,
v sadě skví se jara květ,
zemský ráj to na pohled!
A to je ta krásná země,
země česká domov můj,
země česká domov můj!

Kde domov můj, kde domov můj?
Znáte v kraji bohumilém
[V kraji znáš-li bohumilém]
duše outlé v těle čilém,
mysl jasnou, vznik a zdar
a tu sílu, vzdoru zmar?
To je Čechů slavné plémě,
mezi Čechy domov můj,
mezi Čechy domov můj!

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Onde é meu lar? Onde é meu lar?
A água murmura pelos prados,
pinheiros chiam nos rochedos,
a flor primaveril reluz no jardim,
parece o Paraíso na Terra!
E é esta linda terra,
a terra checa, meu lar,
a terra checa, meu lar!

Onde é meu lar? Onde é meu lar?
Conhece na terra amada por Deus
almas graciosas num corpo vívido,
um pensar claro, prosperidade e sorte
e a força que destrói as afrontas?
É a gloriosa nação dos checos,
meu lar é em meio aos checos,
meu lar é em meio aos checos!


domingo, 13 de março de 2016

Hino nacional da Checoslováquia (1918)


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Esta composição, que serviu como hino da Checoslováquia durante toda a sua existência (de 1918 a 1993, e desde 1945 como país socialista), na verdade é a junção de duas canções populares: a checa Kde domov můj (Onde é meu lar?) e a eslovaca Nad Tatrou sa blýska (Sobre os Tatras fulguram).

A canção Kde domov můj teve a melodia composta por František Škroup e a letra escrita por Josef Kajetán Tyl em 1834, e era originariamente parte da trilha sonora de uma comédia. A canção, porém, ficou muito popular entre os checos, que a consideraram um hino nacional informal ante o domínio austro-húngaro.

A canção Nad Tatrou sa blýska teve a letra escrita pelo jovem estudante Janko Matúška em 1844, sobre a melodia da canção popular Kopala studienku. A canção, que originalmente tem uma segunda estrofe adicional, ficou popular entre outros estudantes nacionalistas, bem como em outros eventos de autoafirmação. Os Tatras são uma cadeia montanhosa que para os eslovacos é considerada o símbolo do país.

O hino da Checoslováquia, adotado em 1918, é a junção das canções checa e eslovaca citadas, portanto é um hino bilíngue, mas da canção Nad Tatrou sa blýska se emprega apenas a primeira estrofe. Em 1993, com a divisão do país em República Checa e Eslováquia, cada parte do hino checoslovaco passou a ser o hino de cada país, e o hino eslovaco incorporou a segunda estrofe esquecida. Até 1993, na parte eslovaca, também se usava o verso Zastavme sa, bratia (Vamos esperar, irmãos), que aparece no vídeo, mas depois se passou a usar Zastavme ich, bratia (Vamos pará-los, irmãos).

Eu traduzi as duas canções a partir de versões em diversas línguas que achei na Wikipédia, e depois, pra postar no meu antigo canal do YouTube, legendei o vídeo que baixei daqui. Após as legendas, estão por escrito a primeira estrofe em checo e a segunda em eslovaco, seguidas da tradução.

Adendo (9/11/2025): Hoje trouxe aqui uma curiosidade, da qual eu não tinha me dado conta mais de 9 anos e meio atrás! Como a população alemã da Checoslováquia era muito grande (os chamados “alemães da Boêmia”, nome histórico da região oeste da Chéquia), também foi oficial de 1918 a 1938 (desmembramento do país) uma tradução poética em alemão do hino; de 1939 a 1945, sob a ocupação nazista, os hinos originais e em alemão se bipartiram pra cada região. Conforme as primeiras estrofes, os nomes de cada parte são Wo ist mein Heim? (Onde é meu lar?) e Ob der Tatra blitzt es (Sobre os Tatras fulgura), traduzidas pelo poeta e letrista popular Wenzel Karl Ernst (1830-1910). Há também versões em húngaro, mas decidi não pesquisar.

Focando agora no alemão, parece estranho que Ernst morreu em 1910 e a Checoslováquia nasceu em 1918. Na verdade, enquanto súdito do então Império Austro-Húngaro, ele nasceu na região histórica da Boêmia, morreu em Viena e foi também um revolucionário próximo de Mikhail Bakunin. Na prisão, aprendeu checo e, após ser indultado, liderou um grupo de tradutores de obras checas e eslovacas pro alemão. Na Wikipédia alemã não há menção explícita, mas deve ter sido na segunda metade do século 19 que Ernst traduziu ou apenas as canções (que já eram populares), ou as peças de que foram extraídas: não pude verificar com exatidão.

Josef Wenzig (1807-1876), nascido em Praga e também alemão, era outro escritor e libretista que traduziu obras checas e eslovacas pro alemão e lutou pela igualdade da língua checa com a alemã no ensino básico. Ele fez sua própria tradução poética de Kde domov můj? pro alemão (também não está claro se apenas da canção ou da peça toda), mas o governo checoslovaco escolheu as traduções de W. K. Ernst como oficiais em 1918. Após o original em checo e eslovaco, inseri as traduções poéticas em alemão (hoje sem valor oficial) e minha tradução literal dessas versões poéticas:



Eis aqui outras duas belas execuções do antigo hino ainda unido da Checoslováquia. A primeira é a execução instrumental da banda militar do Exército comunista, nos 40 anos da vitória sobre os alemães, em 1985, separada da execução do hino soviético que veio logo depois. A segunda é uma improvisação vocal do poeta e compositor Karel Kryl (de bigode) e do cantor Karel Gott, ambos checos, durante a Revolução de Veludo, em novembro de 1989. Na sacada do prédio que então pertencia à editora Melantrich e hoje abriga um hotel de luxo, foram feitos então vários discursos contra o poder, ao povo que se reunia nos comícios na praça Václav (Venceslau), centro de Praga:




Kde domov můj, kde domov můj?
Voda hučí po lučinách,
bory šumí po skalinách,
v sadě skví se jara květ,
zemský ráj to na pohled!
A to je ta krásná země,
země česká domov můj,
země česká domov můj!

Nad Tatrou sa blýska,
Hromy divo bijú,
Nad Tatrou sa blýska,
Hromy divo bijú.
Zastavme sa, bratia,
Ved’ sa ony stratia,
Slováci ožijú.
Zastavme sa, bratia,
Ved’ sa ony stratia,
Slováci ožijú.

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Onde é meu lar, onde é meu lar?
A água murmura pelos prados,
pinheiros chiam nos rochedos,
a flor primaveril reluz no jardim,
parece o Paraíso na Terra!
E esta linda terra,
é a terra checa, meu lar,
é a terra checa, meu lar!

Sobre os Tatras fulguram
E batem forte os trovões,
Sobre os Tatras fulguram
E batem forte os trovões,
Vamos esperar, irmãos,
Porque eles vão cessar
E os eslovacos renascerão.
Vamos esperar, irmãos,
Porque eles vão cessar
E os eslovacos renascerão.

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Wo ist mein Heim, mein Vaterland,
Wo durch Wiesen Bäche brausen,
Wo auf Felsen Wälder sausen,
Wo ein Eden uns entzückt,
Wenn der Lenz die Fluren schmückt:
Dieses Land, so schön vor allen,
Böhmen ist mein Heimatland.
Böhmen ist mein Heimatland.

Ob der Tatra blitzt es,
dröhnt des Donners Krachen.
Ob der Tatra blitzt es,
dröhnt des Donners Krachen.
Doch der Stürme Wehen,
wird gar bald vergehen,
Brüder, wir erwachen!
Doch der Stürme Wehen,
wird gar bald vergehen,
Brüder, wir erwachen!

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Onde é meu lar, minha pátria,
Onde os riachos murmuram pelos prados,
Onde as florestas chiam sobre os rochedos,
Onde um Éden [i.e. Paraíso] nos deleita
Quando a primavera enfeita os campos:
Esta terra em que tudo é tão bonito
É a Boêmia, minha terra natal.
É a Boêmia, minha terra natal.

Sobre os Tatras fulgura,
ruge o estouro do trovão.
Sobre os Tatras fulgura,
ruge o estouro do trovão.
Mas o sopro das tempestades
logo vai realmente passar,
e nós, irmãos, vamos despertar!
Mas o sopro das tempestades
logo vai realmente passar,
e nós, irmãos, vamos despertar!